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BeiraNews | Dezembro 8, 2019

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Aos domingos… hoje com Frederico Duarte Carvalho

Aos domingos… hoje com Frederico Duarte Carvalho
José Lagiosa

A morfina

De vez em quando, administra-se uma pequena dose de morfina no corpo do bravo povo português e atenua-se alguma da dor que se sente. Desde o ano de 1974, quando o padrinho de casamento do pai do actual Presidente da República, Marcelo Caetano, se viu forçado a deixar o governo e País, Portugal teve momentos de euforia e depressão.

Frederico Duarte Carvalho

Frederico Duarte Carvalho

A manifestação de 19 de Julho de 1975, na Fonte Luminosa, encheu toda a alameda com o nome do primeiro rei de Portugal. Era para unir os socialistas e populares-democratas contra o perigo comunista. Cavaco Silva, que viria a ser primeiro-ministro e Presidente da República, esteve lá para ouvir o líder dos socialistas.

Veio depois o 25 de Novembro e o País ficou mais calmo. Começou um caminho de alianças entre PS, PSD e CDS. Tentou-se um PS/CDS, para passar a um PSD/CDS/PPM. Depois do assassinato de Sá Carneiro houve uma aliança PS/PSD.

Ao fim destes tempos estava o País a precisar de uma dose de morfina. Algo que o ajudasse a esquecer a política. E, em 1984, a selecção nacional de futebol chegou longe no Euro, em França, mas a maior dose de morfina foi quando Carlos Lopes venceu a primeira medalha de ouro olímpico para Portugal. Ainda por cima, na prova máxima que é a Maratona. Matou-se um borrego e o País sonhou.

No ano seguinte, Portugal assinou nos Jerónimos a capitulação como potência universal marítima para passar a ser “o bom aluno da Europa”. O “orgulhosamente sós” deu lugar a uma Europa de 12. Três anos passados da entrada de Portugal na CEE, caiu o Muro de Berlim. Foi uma boa dose de morfina, essa. Aliviou muita dor com a junção das alemanhas.

Em 1992 fomos grandes na Europa, pois chegara a nossa vez de presidirmos à união. E, como obra de regime, fez-se o Centro Cultural de Belém. Era o novo símbolo nacional. Aqui ao lado, em Espanha, também levavam doses de morfina em forma de Jogos Olímpicos em Barcelona e Exposição Universal em Sevilha.

Em 1998 fomos nós a ter uma exposição internacional. E mais morfina.

Em 2000, no Euro do futebol, vencemos a Inglaterra com uma reviravolta no resultado. E o Sérgio Conceição meteu três golos à Alemanha. A França trouxe-nos depois para a depressão. A dor. Que se agudizou nos anos seguintes, até 2004, com o Euro na nossa terra. E foi mais morfina. Durante 12 anos muita dor foi infligida em forma de dívida, desemprego e descida da demografia. São os “d” desta nova forma de democracia. A agonia era tão grande que o País precisava de uma dose extra de morfina. Assim, o PS aceitou estar em sintonia com comunistas e extrema-esquerda. Marcelo foi eleito presidente. E até a selecção se sagrou campeão da Europa da mesma forma bonita com que, em 2004, a equipa menos considerada venceu face aos organizadores do torneio.

Depois disto, o nível da morfina que precisamos subiu. Agora não fazemos por menos. A próxima dose de morfina seria ver António Guterres na ONU e a selecção a vencer, daqui a dois anos o mundial na Rússia. Isso sim, seria uma boa forma de esquecer a contratação de Durão Barroso pela Goldman Sachs.

*Frederico Duarte Carvalho, jornalista e escritor

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