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BeiraNews | Setembro 20, 2019

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Aos domingos… hoje com Frederico Duarte Carvalho

Aos domingos… hoje com Frederico Duarte Carvalho
José Lagiosa

Cães de guarda

Leio num artigo de opinião do New York Times – When a Crackpot Runs for President, por Nicholas Kristof – que os jornalistas não podem continuar a passar uma imagem de honestidade em relação ao candidato presidencial do Partido Republicano (PR), Donald Trump.

Frederico Duarte Carvalho

Frederico Duarte Carvalho

Os factos demonstram que a candidata do Partido Democrata (PD), Hillary Clinton, disse mais factos verdadeiros do que Trump. Por isso, os jornalistas têm de denunciar isso e não podem continuar a tratar o candidato do PR com o mesmo critério com que tratam a candidata do PD. Nicholas Kristof termina a sua crónica com o aviso de que os jornalistas são os “cães de guarda” daquilo que os políticos dizem e fazem. E os seus “latidos” devem servir para avisar os leitores quando se aproxima um “ladrão” disposto a assaltar uma casa. E, neste caso em particular, não se trata de uma residência qualquer em Malibu ou na Quinta Avenida. É da Casa Branca, em Washington, a habitação do homem ou mulher que, durante os próximos quatro anos, vai ter a máxima responsabilidade de gerir a nação mais militarizada e politicamente mais poderosa do mundo, face ainda a uma outra nação, a Rússia, sempre disposta a desempenhar um papel alternativo – com a Europa, nós muito incluídos – ali no meio. Por isso, esta eleição interessa-nos e muito. E estes problemas dos “cães de guarda” dos EUA também nos interessam. Sei que mais rapidamente nos diz respeito problemas como é que a temperatura passa de 20 graus para 11 de um dia para outro, mas tudo isto pode andar mesmo ligado. Trump é perigoso para a América e mundo? Claro que é. Mente descaradamente, faz promessas que se antevê que nunca irão ser cumpridas? Sim, e depois?  – a propósito, Obama já fechou Guantánamo? No entanto, Trump diz coisas que só podem ser ditas por um homem que nunca esteve na política activa. Ele pergunta, por exemplo, o que pode Hillary Clinton fazer de novo, diferente ou mudar o rumo do que nos assusta e preocupa quando ela anda já a caminhar nos corredores do poder há mais de 30 anos? Sim, Hillary Clinton era a mulher do governador do Arkansas, Bill Clinton. Já esteve na Casa Branca quando o marido mandava bombardear Kosovo e o Sudão. E andava a perseguir estagiárias. Foi senadora e candidata a candidata à presidência. Foi secretária de Estado. Quanto a Trump, há muito que o toparam. É uma mistura de demagogia à Marinho Pinto com o dinheiro de Belmiro de Azevedo e a cultura empresarial de um Vale Azevedo que tem a sorte de viver num país sério como são os EUA, onde ninguém é preso por seguir os seus sonhos e pagar pelos mesmos. Em “cash”, claro. Não em anos de prisão. Sendo assim, como se chegou a este ponto em que os americanos estão perante um dilema que os parece levar a um dos mais altos níveis de abstenção, onde ninguém quer um dia ser apontado como responsável pela escolha deste ou daquele candidato/a? Se me permitem a ousadia, e pegando na imagem apresentada pelo colunista do New York Times, a culpa é dos “cães de guarda”, ou seja, dos jornalistas. Há muito que deixaram de “ladrar” para os “ladrões” que querem tomar a casa de assalto. Pior. Foram lamber-lhes as feridas que fizeram ao saltarem muros de arame farpado. E, em alguns casos, isso até aconteceu de forma literal. São “cães de guarda” cansados, com um latir rouco que não provoca qualquer reacção de defesa naqueles que era suposto protege, o que neste caso somos nós, a sociedade. Esta sociedade tão pouca em alerta e anestesiada por jogos de Pokemon que até já são usados como arma de arremesso político.

*Frederico Duarte Carvalho, jornalista e escritor

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