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BeiraNews | Março 30, 2020

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Aos domingos… hoje com António Galamba

Aos domingos… hoje com António Galamba
José Lagiosa

Querer estar bem com Deus e com o Diabo

Quem apoia uma solução governativa como quem governa tem de fazer opções. É claro que na política sem valores e sem princípios, a do vale tudo, pode-se tentar agradar a todos ou fazer uma coisa em Lisboa e dizer o seu contrário na sua terra de origem, mas, mais tarde ou mais cedo, a verdade vem sempre à tona. Vivemos tempos de informação, em que o escrutínio sobre o que é dito, o que é feito e os resultados obtidos deveriam ser exercícios rigorosos, objetivos e claros. No entanto, temos o líder do governo e o líder do principal partido da oposição a dizer coisas diferentes sobre o crescimento económico e sobre os resultados da nossa economia. É o triunfo das narrativas partidárias, que exigem um redobrado esforço de filtragem por parte dos cidadãos. Por exemplo, tradicionalmente, o desemprego desce em agosto, este ano subiu umas décimas, mas na ótica de quem está no governo sublinha-se que entre dezembro e julho deste ano, foram criados 145 mil postos de trabalho. A verdade é que os resultados são contraditórios, uns bons outros muito maus e todos aquém das previsões do governo.

António Galamba

António Galamba

O que não faz sentido é a falta de coerência de nuns dias dizer que não se vai pressionar o governo de Espanha sobre a Central Nuclear de Almaraz e dias depois pedir reuniões de urgência, a toque de pressão partidária, ou num dia o primeiro ministro afirmar que a recapitalização da Caixa Geral de Depósitos será feita numa ano, em dois ou três conforme as necessidades, para depois o novo Presidente afirmar que Bruxelas impõe que seja realizado numa só operação. Ou o líder do PSD vir a Castelo Branco a uma conferência sobre a defesa do Interior quando no governo mais não fez do que encerrar serviços públicos de importância vital para as populações, em especial as dos territórios de baixa densidade.

Esta volatilidade do discurso político que muda segundo as circunstâncias e as conveniências, em função de se estar no poder ou na oposição, mina a credibilidade dos políticos e da política e gera um sentimento de repulsa traduzido em indiferença e abstenção.

A vida das pessoas, das empresas e de tudo o que mexe e constitui a nossa identidade como nação são demasiado importantes para estarem sujeitos a experimentalismos ou à imprevisibilidade generalizada sempre que mudam os governos ou as conjugações de força. Neste tempo em que vivemos há demasiados fatores que não controlamos para ainda estarmos sujeitos a experiências políticas ou estados de humores sobre as opções políticas que podemos controlar. É por isso importante que o Orçamento de Estado para 2017 seja um exercício democrático em que seja claro que não se pode estar com Deus e com o Diabo. Quem está com a solução de governo em Lisboa deve ter o sentido de responsabilidade política de não dizer coisa diferente no resto do País, só porque convém para as eleições autárquicas de 2017 fingir que se está com um pé dentro e um pé fora. Quem esteve quatro anos no poder, catalisado pela austeridade além do memorando, deve ter o sentido da fragilidade dos resultados obtidos (no défice, na dívida e no desemprego) e encontrar um registo consentâneo com o que fez e o que conseguiu.

Com ou sem invocações divinas ou demoníacas era importante que a execução dos fundos comunitários ganhassem um novo impulso, que as opções políticas fossem sustentáveis e houvesse previsibilidade na vida das pessoas e dos agentes económicos, que o Interior finalmente tivesse ao seu dispor um conjunto de instrumentos de valorização das suas potencialidades e que se mobilizasse o País para o crescimento económico, o combate à pobreza e as questões da demografia.

A não ser assim, continuaremos com a política de geometria variável e com políticos com a consistência de uma gelatina. Para esses, o que é normal em Portugal é um golpe no Brasil (mudança de Presidente). São os mesmos que se indignaram com a entrada em cena de uma candidata búlgara para o cargo de Secretário(a) Geral das Nações Unidas nos últimos metros da maratona, depois de sucessivas vitórias do beirão António Guterres, mas viram virtualidades em semelhante comportamento em Portugal.

Este é um tempo de clarificação e de responsabilidade pelos resultados, pobres diabos os que ainda assim se julgam endeusados com o alcançado. Por agora, poucochinho.

*António Galamba, militante do Partido Socialista

 

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