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BeiraNews | Janeiro 25, 2020

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Aos domingos… hoje com Ana Rita Calmeiro

Aos domingos… hoje com Ana Rita Calmeiro
José Lagiosa

Trumpetite

Gostava de ser capaz de escrever sobre outra coisa. Gostava, a sério que gostava. Gostava de o preterir pelo bicho da batata doce ou pela extinção dos gorilas em África. Era o que merecia, era mesmo esse o tratamento que lhe correspondia, ser nada nas minhas preocupações, um zero à esquerda nas contas da política mundial. Gostava de o ignorar como se tivesse sido apenas uma diversão eleitoral, uma inflamação republicana, uma trumpetite passageira. Não posso, gostava, mas não posso, não aguento ficar em silêncio, e este texto será, pelo menos, um desabafo higiénico.

Ana Rita Calmeiro

Ana Rita Calmeiro

O que me preocupa não é tanto o facto de Donald Trump, um indivíduo deselegante, absolutamente ordinário e boçal, ser presidente dos Estados Unidos da América. É frequente observar que o dinheiro, por muito que se possua, não ensina ninguém a saber comer com todos os talheres, mas isso, só por si, não representaria perigo maior para a paz mundial. Donald Trump, contudo, consegue a proeza de somar à sua vulgaridade um desprezo doentio pelo ser humano, combinação que durante toda a campanha eleitoral ficou sobejamente documentada, e é esse desprezo pelo outro que me faz temer pela segurança da humanidade e previsivelmente fará com que Donald Trump se transforme no líder mais polémico e perigoso do século XXI.

Esta caixa de pandora foi aberta pelos norte-americanos num acto de protesto democrático que lhes (nos) poderá sair muito caro. As desilusões com a classe política começaram por fazer com que as pessoas votassem em branco para depois passarem a não votar. A abstenção, inicialmente considerada uma perfídia, uma preguiça anti-democrática, é actualmente vista como uma manifestação de protesto, quase uma fineza de espírito, um prenúncio de revolta.

No entanto, como a abstenção imensa que se tem registado em todas as eleições também não produziu nenhuma mudança nos actores políticos nem nos vícios das democracias pouco arejadas, os eleitores americanos passaram para o terceiro nível: eleger alguém sem percurso político, provocador, egocêntrico, suficientemente rico para dizer o que lhe apetece e capaz de humilhar tudo e todos.

Que motivação poderão ter tido? Podem, numa equação mais moderada, ter decidido combater o sistema usando as suas próprias regras e usando o voto como um sinal de protesto, lúcido e deliberado. Milhões de eleitores tacitamente unidos no propósito de ridicularizar o sistema: esta é a tese optimista.

Podem, pelo contrário, ter escolhido Trump por realmente o considerarem o melhor candidato, o mais preparado, o mais adequado, o homem certo na altura certa – esta é, do meu ponto de vista, a tese da falência democrática e da autofagia do sistema eleitoral. Esta é a análise que deveras me preocupa, pois à falta de qualidade dos políticos acrescenta-se porventura a má qualidade do próprio eleitorado, impreparado para avaliar a importância da eleição e o perfil dos candidatos. Esta ideia é dolorosa e será seguramente polémica, mas merece uma discussão honesta. Seja como for, ambas as hipóteses são destrutivas.

Hillary Clinton pediu ao povo americano que não desistisse de lutar pelos seus melhores ideais e pelas causas certas. Admiro a sua resiliência, a sua capacidade de acreditar na via política para resolver os problemas das pessoas e das nações. Nos tempos que correm, essa crença é, cada vez mais, um acto de fé e cada vez menos um produto racional.

O resultado destas eleições americanas é uma inflamação da organização política que poderá derivar numa septicemia generalizada da ordem política mundial. O lema de campanha de Trump, Make America Great Again, poderá bem ser o rastilho que muitos movimentos nacionalistas explosivos esperavam para dinamitarem as democracias e a sociedades abertas e inclusivas do século XXI.

*Ana Rita Calmeiro, deputada na Assembleia Municipal de Castelo Branco pelo PSD

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