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BeiraNews | Junho 26, 2019

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Das “sardinhas cozidas com batata” às “carradas de livros” no Quartier Latin

Das “sardinhas cozidas com batata” às “carradas de livros” no Quartier Latin
José Lagiosa

Depois de ter vivido o exílio em França, entre 1970 e a revolução dos Cravos, Mário Soares continuou a visitar Paris, onde deixou memórias junto da comunidade portuguesa.

Rafael Vilaça, de 74 anos, conheceu o ex-Presidente e líder histórico do PS Mário Soares depois do 25 de Abril de 1974 e ocupou o cargo de secretário-geral da secção portuguesa do partido na capital francesa “quando ele foi embora”.

Dos tempos em que Soares passava por Paris, Rafael Vilaça recorda um homem “simples como tudo” que pedia sempre “sardinhas cozidas com batata” na embaixada e que corria para ver todos os filmes que passavam no Quartier Latin.

“Tinha orgulho e amor àquilo que fazia, mas era simples como tudo. Na embaixada, o prato que ele gostava muito era sardinhas cozidas com batata. Depois ia ao cinema ver os filmes todos que passavam num cinema de arte no Quartier Latin”, lembrou.

Rafael Vilaça teve o primeiro cartão do Partido Socialista com o número 1.322, “antes do partido ser reorganizado” e de receber outro cartão, tendo ficado “sete anos à frente do partido socialista em Paris” e sido várias vezes convidado para falar com Mário Soares “sobre o que os emigrantes pensavam da política” aquando das suas visitas à capital francesa.

A primeira vez que viu Soares foi num almoço com ele e com o presidente francês François Mitterrand na embaixada”, tendo sido o próprio líder histórico do PS quem o reconciliou com o embaixador Coimbra Martins “quando houve uma divergência”, contou o português que vive em França há 50 anos.

“Foi quando houve essa história entre o Coimbra Martins e eu que ele veio e disse-me ‘Oh Vilaça, não estateles o partido!’. E eu disse: ‘Não é a minha intenção fazer isso. Eu estou por Portugal'”, lembrou, justificando que no secretariado “ninguém se entendia” e que “não fazia parte da elite socialista da época” porque “tinha uma fabricazita de mecânica”.

João Heitor, que manteve no Quartier Latin, durante vinte anos, a Librairie Lusophone, viu passar Mário Soares “muitas vezes para dizer bom dia, boa tarde”, mas a livraria de eleição era outra, “ali ao lado”.

“Ele chegou a vir à livraria Lusophone, mas a livraria Compagnie estava a cem metros. O livreiro até me avisava quando ele ia passar. Ele sabia mais que os jornalistas. O Mário Soares vinha e levava carradas de livros. Eram livros ligados à política, sociologia, história”, contou à Lusa o antigo livreiro.

João Heitor recorda “um homem de livros” e lembra-se dos encontros que juntaram Soares e Mitterrand, como uma exposição sobre línguas e um colóquio organizado no Collège de France em torno de livros, tendo organizado, em Paris, um jantar de apresentação da candidatura de Mário Soares a um novo mandato à presidência, aos 82 anos.

Dirigente associativo durante vários anos, antigo conselheiro das comunidades portuguesas e correspondente do Jornal do Fundão, Abílio Laceiras conheceu Mário Soares em Paris “nos anos 70 sobretudo a partir de quando foi primeiro-ministro”, mas também recorda os tempos em que cruzava Soares em cafés parisienses.

“Eu ia lá para o café Grande Colonie de vez em quando onde se reunia tudo o que era socialista. Foi um homem que abriu muitas portas e beneficiou dessa projeção a nível internacional para ajudar o pais logo após o 25 de Abril. Era um homem extremamente competente, lúcido e com memória de elefante que não esquece quem faz bem e quem faz mal”, afirmou.

Ainda assim, sublinha que, nos tempos do exílio, Mário Soares “era um emigrante de luxo, não lhe faltava dinheiro, não lhe faltava nada” e “havia certas divergências entre ele e alguns elementos da oposição que estavam no exílio justamente por causa dessa vivência”.

Quando era conselheiro das comunidades portuguesas, Abílio Laceiras chegou a ter “um incidente” com Mário Soares enquanto primeiro-ministro porque “a reunião correu muito mal” e ficaram “com a candeia às avessas, mas as relações voltaram a ser normais” quando Soares ascendeu à presidência da República.

*Lusa

 

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