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BeiraNews | Junho 1, 2020

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REPORTAGEM: Vila Real quer fazer “renascer das cinzas” o barro negro de Bisalhães

REPORTAGEM: Vila Real quer fazer “renascer das cinzas” o barro negro de Bisalhães
José Lagiosa

A Câmara de Vila Real quer fazer “renascer das cinzas” o barro negro de Bisalhães, apostando na formação desta arte classificada pela UNESCO para garantir, também, a presença de mais oleiros na tradicional Feira de São Pedro.

Durante décadas, na Feira de São Pedro ou dos “Pucarinhos”, que decorre nos dias 28 e 29 de junho, os oleiros de Bisalhães desciam à cidade de Vila Real para vender as peças de barro negro.

O envelhecimento dos artesãos levou a que cada vez menos deles participem no tradicional certame e, hoje, foram apenas dois os que marcaram presença no centro histórico da cidade.

Foi também o envelhecimento do oleiros e o risco de extinção da arte que levou o município de Vila Real a apresentar uma candidatura à UNESCO que, em novembro, inscreveu o processo de fabrico do barro preto de Bisalhães na lista do Património Cultural Imaterial que necessita de salvaguarda urgente.

“Os mais idosos já não querem vir para o São Pedro e torna-se difícil mantermos esta tradição. Mas, queremos fazer renascer das cinzas esta arte”, afirmou à agência Lusa Eugénia Almeida, vereadora responsável pelo pelouro da cultura na Câmara de Vila Real.

A candidatura à UNESCO foi acompanhada de um plano de salvaguarda do barro de Bisalhães, o qual, segundo Eugénia Almeida, prevê uma forte aposta na formação de novos oleiros.

Para a responsável, a formação representa “o futuro” do barro negro, que atualmente é confecionado por sete oleiros, a maior parte deles com mais de 80 anos.

“Isto só poderá vir a ter sucesso se formarmos novas pessoas para trabalharem esta forma de fazer a louça negra de Bisalhães”, salientou

A autarca referiu ainda que se está a estudar a possibilidade de apresentar uma candidatura a fundos comunitários para tornar “mais célere o processo”.

A vereadora frisou que estes “não são processos fáceis” porque o “próprio processo de confeção da louça “é difícil”. Este é considerado um ofício duro, exigente, com recurso a processos que remontam, pelo menos, ao século XVI.

O processo de fabrico inclui desde o tratamento inicial que se dá ao barro, até à cozedura.

As peças que nascem pelas mãos destes artesãos são depois cozidas em velhinhos fornos abertos na terra, onde são queimadas giestas, caruma, carquejas e abafadas depois com terra escura, a mesma que lhe vai dar a cor negra.

Este ano, a autarquia montou também, junto à Capela Nova, um ‘stand’ onde expôs a sua coleção privada de peças de barro negro e onde divulga o Património da UNESCO.

Apesar dos 82 anos, Albano Pinto de Carvalho fez questão de cumprir a tradição e montou um pequeno ‘stand’ onde expôs as suas peças. Começou por fazer esculturas cristãs e ficou conhecido como o “Albano dos Cristos”.

O artesão disse à Lusa que a Feira de São Pedro é um bom local para divulgar o seu trabalho e vender algumas peças. “Não nos dão bem o que nós queremos, não nos pagam o trabalho que temos, mas temos que vender para governarmos a vida”,frisou.

Narro negro de Bisalhães

Também Miguel Fontes, 38 anos, quis marcar presença na “Feira dos Pucarinhos” para manter a tradição. É oleiro nos tempos livres, dedicando-se a uma arte que aprendeu com os avôs.

Miguel explicou que as peças utilitárias são as que se vendem melhor, como os alguidares e as assadeiras, e depois as peças mais decorativas (bilha de rosca e a bilha de segredo).

“Depois da classificação notou-se um pouco mais de procura. Será sempre positivo novas tentativas, foram sendo feitas algumas no passado sem grandes frutos, mas pode ser que agora, com a classificação pela UNESCO, apareçam mais interessados em continuar a trabalhar o barro”, salientou o oleiro.

*Lusa

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