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BeiraNews | Dezembro 10, 2019

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REPORTAGEM: Samuel Pereira treina em colchão que o ‘chicoteia’ para ser campeão de salto em altura

REPORTAGEM: Samuel Pereira treina em colchão que o ‘chicoteia’ para ser campeão de salto em altura
José Lagiosa

Parece ter sido chicoteado, mas , atleta juvenil, bicampeão nacional de salto em altura, esteve apenas a treinar. Crostas nas costas, nódoas negras ou queimaduras são o preço que está disposto a pagar para poder evoluir na sua terra.

O único colchão que existe na Covilhã está deteriorado e amarrado com cordas de nylon para não se desintegrar. Ainda que receie lesionar-se e por vezes hesite, saltar é o que gosta de fazer e o treino diário é fundamental para se manter líder do ‘ranking’ nacional do seu escalão.

A cada queda, levanta-se uma nuvem de pó à volta do saltador de 16 anos, que por momentos o obriga a proteger os olhos. Bruno Mangana, o treinador, que o acompanha há dez anos, vai ajeitando uma carpete improvisada em cima das cordas, mas na hora da receção o tapete movimenta-se e Samuel acaba por colecionar mais algumas feridas.

Este ano bateu um recorde com 13 anos, no Olímpico Jovem, quando saltou 2,01 m. Tudo começou há cinco anos. Experimentou saltar e o técnico percebeu existir potencial. Ainda era iniciado e já participava, informalmente, em estágios da seleção nacional. Agora, com a promessa de melhores condições para poder explorar as suas capacidades, está a caminho do Benfica, embora no dia-a-dia continue a treinar na Covilhã, a dez quilómetros da sua casa, em Orjais.

Cada vez que salta no Complexo Desportivo da Covilhã “é uma dor de alma”. “Tenho medo de que ele se magoe”, confessa o treinador à agência Lusa. Simão Pereira garante nunca ter pensado desistir. “Para mim, magoar-me já faz parte do treino”, diz o jovem de 1,87 m.

Quando faltam condições, sobra imaginação. “Às vezes temos de inventar, para podermos trabalhar”, vinca o treinador. As caixas de saltos são um desses exemplos. Face à inexistência do equipamento, Bruno Mangana construiu-as ele próprio.

Ainda que Simão se queixe da pista “muito dura”, a precisar de um tapete, vai conseguindo melhorar a força, a técnica, a resistência. Já o técnico destaca a “força mental”, que lhe permite ter a resiliência para progredir.

No final da temporada, o atleta do Donas tinha propostas de oito clubes. Optou pelo Benfica, onde afirma ter-se sentido desejado e onde está alguém que apostou nele, o treinador Pedro Pinto, antigo diretor técnico nacional, para além de poder passar a beneficiar de melhores condições de treino e do acompanhamento de uma equipa multidisciplinar.

Foram as “características típicas de um saltador e a morfologia” que chamaram a atenção do antigo selecionador. Simão Pereira é “magrinho, alto, com as pernas longas, segmentos longos”, características que aliada a “uma boa capacidade elástica”.

“Eu penso que este miúdo tem uma grande margem de progressão”, sublinha Pedro Pinto, que não se limita a olhar para o ‘ranking’, mas também para o “ponto de maturação” do atleta. Ao contrário de outros, muscularmente muito desenvolvidos, fisicamente quase adultos, Simão Pereira “é um miúdo”.

O treinador ‘encarnado’ sublinha as boas marcas e tem boas expectativas, embora acentue existirem vários problemas, como as lesões, que podem prejudicar um percurso. Para já, deseja que o atleta, estudante de Multimédia, possa crescer continuando a treinar no local habitual.

“Esperemos que ele consiga produzir o seu máximo potencial na terra dele. Neste momento é capaz de ser o jovem mais promissor daquela zona. Era bom que a região tivesse isso em consideração”, realça, em declarações à agência Lusa.

Segundo Bruno Mangana, existe a promessa do presidente da Câmara da Covilhã de que vai ser comprado um novo colchão, uma forma de facilitar a Simão Pereira e outros atletas da zona atingir mais altos voos.

*Lusa

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