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Quarta-feira, Março 3, 2021
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Voltar a cumprir Abril

Estamos a pouco mais de dois meses de voltar a celebrar Abril.
Naquele dia 25 de Abril, há quase quarenta e quatro anos, a esperança desceu à rua e renasceu para milhões a expectativa de dias melhores, com um salário justo e com condições de vida dignas, em liberdade. Para outros este dia marcou o princípio do fim!

José Lagiosa

Hoje, com a democracia aparentemente estabilizada sob o ponto de vista político, mas com um renascimento e domínio o mundo económico, por grandes grupos, resta-nos a nostalgia dessa esperança!
Desde Abril, nunca como agora, Portugal atravessa um momento negro da sua vida democrática.
São escândalos atrás de escândalos, com promiscuidade de toda a espécie, entre política, economia, futebol, para já não falar da banca e de alguns sectores da magistratura.
Abril, continua por cumprir em muitas das suas vertentes. No plano social, no plano laboral, no plano económico e mesmo no plano político.
Não se pense que o que quero dizer com esta afirmação, é fazer um discurso extremado à esquerda. Não! O que quero dizer é que, mesmo numa sociedade organizada, na forma e no conteúdo, à imagem de tantas outras na Europa, Portugal, a sua classe política e os próprios portugueses poderiam e deveriam ter feito bem melhor nestes últimos quarenta anos, de maneira a que a realidade a que hoje se assiste fosse muito diferente daquilo que é.
Portugal e as esperanças de Abril têm vindo, a ser adiadas ano após ano, governo após governo, com as poucas que avançaram a serem agora, também elas, ameaçadas e o Serviço Nacional de Saúde é um dos exemplos.
Hoje de Abril pouco mais resta do que a Liberdade.
Esta realidade não é no entanto somente culpa de alguns. É culpa de todos, a começar por aqueles que tão mal dizem do país, mas que são os primeiros a reivindicar tudo e mais alguma coisa, quando se trata de encher os seus próprios bolsos.
Salgueiro Maia no dia 25 de Abril de 1974

Os militares de Abril, ou aqueles que ainda sobrevivem ao passar dos anos, cuja expressão máxima de pureza foi Salgueiro Maia, fizeram Abril, com o Povo e para o Povo. Hoje o Povo alheou-se de Abril e parece ter esquecido que por mais que não fosse, Abril valeu a pena pela Liberdade. Mas Abril foi e será sempre mais que a liberdade. Foi o fim de uma guerra injusta e devastadora. Foi o nascer de novas nações. Foi a viragem para a Europa, foi uma nova esperança! Foi um redescobrir de realidades do país há muito esquecidas. Foi desenvolver apesar de muitos erros, Portugal!
Se me perguntarem se valeu a pena, direi apenas como o poeta que “tudo vale a pena, quando a alma não é pequena”.
É necessário, no entanto, não ter vergonha de Abril e voltar  defender os mais elementares princípios da democracia, como o direito à diferença, o direito de opinião, o direito a dizer não e tantos outros, como preservar os seus símbolos e fundamentalmente as suas memórias.
Tratar mal a memória de Abril é seguramente um exercício de negação da própria liberdade que Abril e os seus militares nos ofereceram!
Agora mais do que chorar mágoas, é necessário apontar erros e culpados, olhar em frente, cabeça erguida e enfrentar os novos desafios que se colocam a todos nós e nomeadamente aos nossos governantes. É tempo de fazer, de reformar, reorganizar o país.
Os territórios de baixa densidade populacional, vulgo interior, têm de fazer parte integrante do país e Portugal não pode continuar adiado!
Se queremos cumprir Abril! Porque ainda podemos cumprir Abril!
Podemos sempre!

*José Lagiosa, director do beiranews.pt

 

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