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Cinemateca Francesa repõe primeira Quinzena dos Realizadores nos 50 anos do Maio 68

A Quinzena dos Realizadores, secção paralela do Festival de Cannes, surgiu da contestação do Maio de 68, com uma programação que a Cinemateca Francesa repõe este mês, com filmes como “O leito da virgem”, a exibir hoje em Paris.
A sessão insere-se nas comemorações dos 50 anos do levantamento estudantil, que levou à greve geral em França e à dissolução da Assembleia Nacional, e faz parte do ciclo “L’Utopie”, da Cinemateca Francesa, que procura reconstruir a programação da primeira Quinzena dos Realizadores, criada em 1969 pela Sociedade dos Realizadores de Cinema, com aposta em novas obras e no inconformismo da época, em oposição à corrente institucional.
Estabelecida como secção alternativa, em 1969, paralela ao Festival de Cannes, que tinha sido suspenso no ano anterior, a primeira Quinzena reuniu mais de cem curtas e longas-metragens de novos cineastas, que iam da “Nouvelle Vague” francesa, ao Cinema Novo brasileiro.
Filmes como “Barravento”, de Glauber Rocha, “Brasil ano 2000”, de Walter Lima Jr., “Calcutá”, de Louis Malle, “Partner”, de Bernardo Bertolucci, “Une Femme Douce”, de Robert Bresson, e “Paulina s’en Va”, de André Téchiné, “Duo Pour Cannibales”, de Susan Sontag, estão entre os filmes dessa primeira edição.
“O leito da virgem”, um dos mais polémicos da época, foi rodado por Garrel, quando o cineasta tinha 20 anos, e recria o nascimento de um Jesus demasiado adulto e demasiado humano para a época, servido pela banda sonora de Nico, a partir do seu álbum “Desertshore”.
Dos filmes apresentados na primeira Quinzena dos Realizadores, o ciclo “L’Utopie” conseguiu recuperar 65, entre os quais “La primera carga al machete”, do realizador cubano Manuel Octavio Gómez, que abriu a primeira Quinzena, com o apoio do então embaixador de Cuba em Paris, o escritor Alejo Carpentier.
Fazem parte da recolha “Diário de um ladrão”, do japonês Nagisa Oshima, “Invasão”, do argentino Hugo Santiago, escrito em parceria com Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares, “Maria”, da húngara Márta Mészáros, “Uma mulher meiga”, do francês Robert Bresson, assim como “Three”, o único filme dirigido pelo escritor norte-americano James Salter.
Dos Estados Unidos também participou o veterano Roger Corman, que já levava quase duas décadas de trabalho, com os seus filmes de ‘série B’ a transformarem-se em produções de culto, como “O corvo”, “O fosso e o pêndulo” e “Loja dos Horrores”. Ao inconformismo da nova secção de Cannes, Corman levou “Os hippies”.
O diretor artístico da primeira Quinzena, Pierre-Henri Deleau, programou esta secção durante 30 anos, estando na origem da escolha de Manoel de Oliveira, que venceu o prémio da crítica em 1998, com “Viagem ao princípio do mundo”.
O feito foi repetido no ano passado por Pedro Pinho, com a “A fábrica de nada”. Em 2013, João Nicolau, venceu o prémio de melhor curta-metragem com “Gambozinos”.
José Álvaro Morais, Teresa Villaverde, João Pedro Rodrigues, Miguel Gomes, Marco Martins, João Botelho, Susana Nobre e Basil da Cunha são outros portugueses selecionados para a Quinzena dos Realizadores, depois de José Fonseca e Costa, com “Os Demónios de Alcácer Quibir”, em 1977, o primeiro filme português nesta secção.
A Cinemateca Francesa é uma das nove instituições de Paris que se uniram para assinalar os 50 anos do Maio de 68, ao longo deste ano, a par de Universidade Paris Nanterre, Théâtre des Amandiers, Le Palais de Tokyo, museu de arte contemporânea, Cidade da Arquitetura e do Património, Arquivos Nacionais, Biblioteca Nacional, Escola Superior de Belas-Artes e Centro Georges Pompidou.
As nove instituições têm por objetivo ir à origem do movimento político e social, que partiu das universidades e chegou ao operariado, analisar o seu legado e a sua vigência na atualidade.
*Lusa / Foto: Jens Kalaene / Lusa

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