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Vitorino defende que em Portugal "felizmente" há consenso político sobre as migrações

António Vitorino defende que em Portugal existe um consenso político “bastante alargado” sobre a política de imigração, que não é usada como “instrumento” de combate político, mas adverte que nenhum país está imune à tentação manipuladora do tema.
“Há tantas razões para os portugueses divergirem entre si, que eu acho que é um bom sinal que não sintam a necessidade de utilizar essa política como mais um fator de divisão”, afirma o diretor-geral da Organização Internacional das Migrações (OIM) em entrevista à Lusa, ressalvando, todavia, que “cada caso é um caso”.
Vitorino evoca a circunstância de Portugal ter sido durante décadas um país de origem de emigrantes como “um elemento importante a ter em linha de conta na maneira como nós, portugueses, recebemos os imigrantes”.
“Mas o mesmo talvez se pudesse dizer em relação, por exemplo, a Itália, onde as coisas não se passam exatamente da mesma maneira”, salienta.
Segundo o político português, “nunca há uma causa única” e o facto de em Portugal existirem poucos imigrantes “pode ser um elemento importante”, mas não é sequer determinante.
“Algumas das regiões da Europa onde o sentimento anti-imigração é mais forte são zonas onde há menos imigrantes, onde o convívio com a realidade da imigração é mais distante e remoto e é muito mais suscetível de ser tomado de assalto por retóricas, por imagens manipuladoras”, destaca.
O diretor-geral da OIM alerta para o facto de na Europa haver “aqui e ali” sinais de autoritarismo em alguns sistemas democráticos.
E defende que a ascensão de forças autoritárias, xenófobas, populistas tem a ver “de certeza absoluta” com a chamada crise dos refugiados em 2015, em que num curto espaço de tempo chegaram ao continente europeu cerca de um milhão de pessoas e as opiniões públicas tiveram a perceção de que essa chegada era descontrolada e que os governos tinham perdido a capacidade de controlar as fronteiras externas e registar os que chegavam, segundo diz.
“Isso aumentou um conjunto de sentimentos de insegurança de que as migrações e os migrantes são, em larga medida, um bode expiatório fácil porque são diferentes, porque são estrangeiros, porque estão confrontados com o desafio de se adaptarem a um novo país de acolhimento e porque também colocam novos desafios às próprias comunidades que os recebem”, declara António Vitorino.
Segundo o diretor-geral da OIM, a evidência de que forças populistas europeias têm usado o tema das migrações para conquistarem apoio popular é exemplificada pelo partido alemão ‘Alternativa para a Alemanha’ (em alemão: Alternative für Deutschland, sigla AfD).
“Enquanto foi um partido muito centrado na questão do Euro e contra a ajuda aos países do sul da Europa, nunca teve qualquer tipo de expressão popular e de repente, na sequência da crise de 2015, cavalgou o tema das migrações, manipulou-o e instrumentalizou-o para favorecer a sua retórica, que é uma retórica anti-imigrante, que é também uma retórica que tem laivos de racismo e de discriminação, com base em características xenófobas e, obviamente, passou um sentido autoritário em relação à política alemã que nós nunca tínhamos visto desde a Segunda Guerra Mundial”, afirmou o ex-comissário europeu e advogado português.
Um outro exemplo em que o tema das migrações foi dominante é o caso do ‘Brexit’, em que esteve em causa “não apenas migrações oriundas de países terceiros, mas também migrações oriundas dos próprios países europeus ao abrigo da chamada liberdade de circulação de pessoas, o que significa que teoricamente nenhum país está imune a este tipo de tentações manipuladoras do tema das migrações, em benefício de retóricas muitas vezes autoritárias, racistas e xenófobas”.
António Vitorino manifesta, no entanto, confiança de que “as democracias têm de aprender a reinventar-se e, portanto, essas ameaças não são de molde a subverter a força da democracia que é a força do povo”.
“O que é necessário é que nós tenhamos lideranças políticas que sejam capazes de apresentar esse caminho de rejuvenescimento e de renovação da democracia para que os valores em que acreditamos prevaleçam no fim”, destaca.
E sublinha: “É preciso que aqueles que defendem os valores do pluralismo, da democracia, do respeito pelos direitos do homem, de uma ordem internacional contratualizada não fiquem em casa, não sejam tímidos, não se escondam ou às vezes até não cedam à tentação de copiar os outros, porque já deviam ter aprendido que, quando se trata de escolhas, as pessoas preferem sempre o original do que a cópia e não ganham nada em copiar os maus hábitos”.
*Lusa / Foto: ANDRE KOSTERS

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