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Terça-feira, Abril 20, 2021
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Europa que futuro?… por Marisa Matias do BE

Abrir caminhos numa União Europeia bloqueada

Não é possível pensar o futuro da União Europeia no abstracto. Aqui chegados, vivemos actualmente num tempo de muros. Vivemos num tempo em que pesam já décadas de integração desigual e do grande consenso liberal que transformou o mapa político. Vivemos a consequência da desistência da luta pelos direitos do trabalho, do combate à pobreza e desigualdades e pelo Estado social, em particular da social democracia europeia.

Marisa Matias

É nos escombros da Europa ultraliberal que assistimos ao levantamento de sombras do passado e à ascensão da extrema-direita, resultante de uma conjugação entre uma crise social prolongada, a ausência de respostas em todo o arco do consenso europeu e o autoritarismo das suas elites. A ascensão da extrema-direita explica-se também pela forma como o discurso de ódio, a xenofobia, o racismo, o sexismo e a homofobia ganharam força no próprio centro político europeu.

Aqueles que durante vários anos afirmaram que a crise social permanente era o novo normal e a única política possível, hoje acenam com a chantagem da possibilidade de uma Europa governada pela extrema-direita. A elite europeia deixou há muito de ter um programa mobilizador e limita-se a agitar os monstros que ajudou a criar.

É, porém, nesta União Europeia bloqueada que se vão abrindo caminhos. Perante o falhanço das políticas europeias e da desistência dos que sacrificam tudo para defender uma União desigual, vão-se afirmando alternativas surgindo novos sujeitos políticos, mesmo que ainda sem tradução nas instituições europeias. Os caminhos são diferentes porque são diferentes os contextos e as lutas sociais, mas é dessas forças, dessa pluralidade e dessas alternativas que se está a construir um polo político que pode vir a hegemonizar a alternativa ao consenso liberal europeu. Essa alternativa faz-se com o compromisso com o trabalho, com o Estado social, com a democracia e a solidariedade, em estreita relação com as lutas e os movimentos sociais. Essa alternativa faz-se com a inscrição da urgência do combate às alterações climáticas em todas as políticas. 

Há quatro anos assistimos a um acordo inédito com um governo minoritário do Partido Socialista reverteu algumas medidas da troika. A melhoria na vida das pessoas ficou aquém, mas foi real. Assim como ficaram claros os limites desta política no quadro das imposições europeias. A alternativa que acredito aposta nos serviços públicos, na defesa da legislação laboral assente em direitos e salários dignos e na justiça fiscal. A alternativa que acredito é solidária. Para isso ser possível, é preciso ir mais longe. É preciso fazer melhor. 

Uma Europa das solidariedades deve ser construída na base de relações económicas equilibradas entre países e no primado de um sistema de direitos que recupere o melhor das tradições democráticas dos seus Estados sociais. Sei hoje que essa Europa não poderá nascer dos atuais Tratados da União Europeia. E não poderá nunca ser rodeada por muros que deixam de fora as vítimas de conflitos e catástrofes em que as potências europeias têm responsabilidades de primeira ordem. Terá de ser uma Europa da responsabilidade inteira, virada para todos os outros continentes.

A União Europeia do futuro será aquela que as pessoas quiserem que seja. No momento em que a integração europeia se tornou uma ameaça para a própria democracia, será um lugar melhor se houver coragem de defender, sem hesitações, a democracia e os direitos que a compõem.

*Marisa Matias, cabeça de lista do Bloco de Esquerda às Eleições Europeias

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