Image Image Image Image Image Image Image Image Image Image
       

BeiraNews | Abril 10, 2020

Ir para o Topo

Topo

Sem Comentários

Palestra sobre “João Franco, Retrato de Imprensa” em Castelo Branco

Palestra sobre “João Franco, Retrato de Imprensa” em Castelo Branco
José Lagiosa

A Real Associação da Beira Interior e a Cooperativa Destarte, organizou uma palestra no dia 12 de Abril, subordinada ao tema – “João Franco – Retrato de Imprensa”.

O evento foi realizado na Biblioteca Municipal de Castelo Branco, teve o apoio da Câmara Municipal de Castelo Branco e teve como oradores convidados, o professor e investigador Álvaro Costa de Matos, o investigador e jurista José Magalhães Rapoula e o investigador e administrador de empresas João de Mello Franco (bisneto de João Franco).

Na Mesa estiveram os oradores e o vice-presidente da Real Associação da Beira Interior, Luís Duque-Vieira.

 Álvaro Costa de Matos          

Os jornais, as revistas e os panfletos eram as “redes sociais” do Século XIX, sendo a imprensa do Século XIX o 5.º poder do Estado, pois o 4.º poder na época oitocentista era exercido pelo Rei, numa Monarquia constitucional.

A imprensa era e é um órgão de informação dos regimes que estavam no poder, mas um instrumento também utilizado como contrapoder.

A imprensa começa a ter um crescimento exponencial a partir dos anos 50 do Século XIX, concentrando-se no Bairro Alto, em Lisboa.

Os jornais e revistas da época eram tendenciosos, ou seja, estavam ligados a determinada facção política que apoiavam. O “Diário Ilustrado”, por exemplo, que existiu entre 1872-1910, apoiou João Franco e era o órgão de informação, primeiro do partido regenerador e, depois da cisão franquista, do partido regenerador liberal.

Os jornais e revistas eram mecanismos para um crescimento de determinada personalidade, como políticos, escritores, artistas plásticos, poetas, historiadores…

As vias de comunicação e a tecnologia da época permitiram uma melhor distribuição de periódicos, assim aumentando as tiragens e tendo preços compatíveis.

Existia a imprensa popular e várias revistas humorísticas, que geralmente eram neutrais e objectivas. Os jornais populares, como “O Século”, “O Mundo” e “O Povo de Aveiro”, eram periódicos virados para os escândalos, nomeadamente “O Mundo”.

Este jornal foi, em parte, responsável pela queda da Monarquia Constitucional e o afastamento político de João Franco ao noticiar com grande sensacionalismo a greve académica de 1907, os adiantamentos à família Real, o ultimato inglês e o regicídio, em 1 de Fevereiro de 1908.

Havia um jornal humorístico, “O Xuão”, criado para “gozar” com a figura de João Franco, cujo título resultava da pronúncia do político beirão, que chegou a ter uma tiragem de 40.000 exemplares, enquanto jornais como o “Diário Ilustrado” e ”O Século” tinham, respectivamente, 80.000 e 110.000 exemplares.

Nesta época oitocentista surgem os jornais da imprensa operária, como o “Eco Metalúrgico”, em 1850, e a imprensa feminina em 1868.

João Franco queria mudar o regime por dentro, respeitando eleições e uma imprensa livre, mantendo assim a Monarquia constitucional.

No entanto, mais tarde verificou-se que a imprensa da I e II Repúblicas foram objecto de uma forte censura

José Magalhães Rapoula

Rafael Bordalo Pinheiro fundou e participou em diversas publicações periódicas, que seguiram atentamente o ambiente político nacional do período da Regeneração, decorrido entre 1870 e 1910, tais como os “Pontos nos iis”, “O António Maria” e “A Paródia”.

Entre os políticos do tempo, alguns deles mereceram especial destaque nas publicações rafaelinas, sendo o político beirão João Ferreira Franco Pinto Castelo Branco um dos mais retratados. João Franco entrou no parlamento, em 1884, como deputado do partido Regenerador e pela mão de Fontes Pereira de Melo.

A eloquência de João Franco é desde logo notada e comentada no jornal “Pontos nos iis”, em 1886, com uma primeira referência altamente elogiosa, quando se distingue na defesa dos interesses de Guimarães.

Desde esta primeira aparição até 1907, as publicações de Rafael Bordalo não mais deixarão de seguir o meteórico percurso do político.

Na sequência do ultimato inglês, que teve lugar em 11 de Janeiro de 1890, deu-se uma onda de contestação nacional ao regime que provocou a queda do governo liderado por José Luciano de Castro.

Em 14 de Janeiro, toma então posse um novo governo de união nacional, com Serpa Pimentel na presidência e João Franco a ocupar a pasta da Fazenda.

Enquanto titular da Fazenda, João Franco tenta equilibrar as contas públicas e responder aos compromissos com os credores externos, que se iam agravando sem uma solução à vista.

Lança um imposto adicional e propõe a alienação parcial do monopólio dos tabacos do Estado, como uma solução financeira para amortizar a volumosa dívida externa.

Enceta uma paulatina reforma da instrução pública que irá desenvolver e completar em posteriores participações governamentais.

Com a assinatura do Tratado, de 20 de Agosto de 1890, uma nova onda de contestação leva à queda do governo de Serpa Pimentel, com João Franco a regressar às fileiras regeneradoras no parlamento, já como um dos seus mais proeminentes e combativos deputados.

João Crisóstomo é convidado a formar governo e, na primeira remodelação governamental, em 21 de Maio de 1891, João Franco é nomeado ministro das Obras Públicas, Comércio e Indústria.

Nesse mesmo ano, inaugura a linha do caminho-de-ferro da Beira Baixa, um acontecimento nacional que contou com a presença do Rei Dom Carlos I e da família Real, bem como de um sem número de ilustres, que em Castelo Branco se banquetearam e pernoitaram em casa de Tavares Proença.

A cornucópia da abundância beirã foi derramada durante três dias sobre os ilustres visitantes e até Rafael Bordalo Pinheiro se perdeu no deleite de tantas iguarias, néctares e simpatias, e esqueceu a reportagem que deveria fazer.

Acabou por fazer uma recriação de memória dos festejos em Castelo Branco e na Covilhã e uma crónica, a desancar na jornalista americana que se negou a emprestar-lhe as fotos do acontecimento para os seus esboços.

Enquanto se ocupou das Obras Públicas, João Franco defendeu a criação de um ministério autónomo para a Instrução Pública, o qual veio a ser criado e inicialmente ocupado por Sampaio e Mello.

Após a demissão deste, o próprio João Franco sobraçou a pasta e seguiu com a política reformadora para fazer face ao analfabetismo endémico que passava os 80%.

O governo cai em 17 de Janeiro de 1892 e a pasta autónoma da educação viria a ser extinta logo no governo seguinte de José Dias Ferreira, por razões financeiras, com João Franco a regressar às lides parlamentares.

Hintze Ribeiro é convidado a formar governo em 1893 e João Franco surge sem surpresa a ocupar a pasta do Reino e, mais uma vez, a responsabilidade pelos assuntos da instrução pública.

João Franco preocupa-se em reformar o regime poder por dentro e enceta várias reformas entre 1893- 1897, na administração pública, dos tribunais às escolas.

Rafael está alerta e aponta os seus lápis ao fero juiz Veiga e às medidas ditatoriais do governo Hintze/Franco.

Em 1898, após a queda do governo de Hintze, João Franco participa num encontro que junta um grupo de ilustres, descontentes com o curso da política nacional e com o desempenho dos partidos rotativos, que ficou conhecido como o “encontro dos endireitas”.

Entra em rota de colisão com Hintze Ribeiro e recusa participar no novo governo regenerador.

Como deputado discursa contra o governo de Hintze, a que este responde com a dissolução do parlamento e a aprovação de uma nova lei eleitoral que beneficia os grandes partidos.

Dá-se a “Cisão” e João Franco sai do Partido Regenerador, acompanhado por um grupo de 25 deputados.

Cria o partido Regenerador Liberal, mas nas eleições de 1901 não logra mais que eleger um deputado pelo círculo da Anadia numa ronda eleitoral viciada.

Depois de uma viagem por Itália, João Franco inaugura um discurso democratizante e centros regeneradores liberais por todo o país, adopta uma prática política moderna de propaganda e define um conteúdo programático político partidário.

O projecto franquista foi então visto com um misto de simpatia e de esperança por vastos sectores da sociedade portuguesa, entre velhos monárquicos e mesmo entre republicanos, com João Franco a encarnar o Messias salvador da pátria.

Não tardaria muito até que Dom Carlos I o convidasse a formar governo, o que aconteceu em 19 de Maio de 1906, cargo que ocupou até 4 de Fevereiro de 1908.

As páginas de “A Paródia” prestaram elogios e um inusitado apoio ao franquismo até 1906, sem deixar de alternar com o republicanismo as suas simpatias, mas dedicando sempre as sátiras mais ferozes aos partidos do poder.

Esta linha editorial alterou-se radicalmente com a morte de Rafael Bordalo Pinheiro, passando A Paródia a ter uma atitude crítica crescente quanto ao governo de Franco, sobretudo a partir de finais de 1906, quando se inicia mais um período ditatorial transitório.

Ao largo da sua vida, João Franco manteve importantes ligações com políticos, intelectuais e artistas de relevo, como Oliveira Martins, Carlos Lobo d’Ávila, Ramalho Ortigão, Eugénio de Castro ou Rafael Bordalo Pinheiro, assim como alianças e contactos pontuais com outros influentes beirões, como Vaz Preto e Tavares Proença.

Rafael Bordalo Pinheiro morreria entretanto, em Fevereiro de 1905, deixando um legado artístico incomparável, mas sem chegar a ver acontecer, em pouco mais de 5 anos: o fim do rotativismo partidário e o fracasso do projecto reformista de Franco; o trágico regicídio e a queda do regime monárquico. Imediatamente após a morte do rei, João Franco abandonou para sempre a política, tendo vindo a falecer em Abril de 1929, há precisamente 90 anos, data que se evoca nesta sessão de palestras.

João de Mello Franco

João  de Mello  Franco começou a sua intervenção  informando  que como bisneto  de João  Franco  sempre se interessou pela análise  da personalidade  de seu bisavô  do que pela a sua actividade  política  que obviamente  cabe mais a historiadores do que a um seu descendente.

Sempre fascinou ver como  o seu bisavô  teve grandes defensores  e grandes opositores  não  deixando ninguém  na época  indiferente. 

Além  disso, o seu interesse também  veio do modo como desde muito pequeno na terra dos seus antepassados lhe eram contados histórias  pessoais sobre o seu bisavô  por  pessoas  que o tinham conhecido  pessoalmente.

João Franco era filho, neto e bisneto único, tinha uma família muito reduzida com parentes próximos na Capinha e Vale de Prazeres como João António Franco Frazão, José Capelo Franco Frazão e Aurélio Pinto de Castello-Branco. Era filho do político Frederico Franco e Freire e de Luísa Pinto de Castello-Branco, casou-se com Maria Lívia Ferrari Schindler da Confederação Helvética. 

João Franco, sendo uma pessoa um pouco diferente, pois era filho único e filho de pais separados (raro na época), tinha em Coimbra aquando estudante de direito a alcunha de João Mata Gatos.

João Franco era um reformador bem-intencionado, que pretendia reformar o regime por dentro, evoluir a nação e tira-la do flagelo do rotativismo que não trazia benefícios para o país.

João Franco faz com Guimarães seja elevada a cidade em 1886, reforma o ensino publico (o ensino liceal passa a ser de 7 anos), cria escolas para formar professores primários, além de outras reformas de grande importância para o país nomeadamente nas obras públicas.

Os amigos de João Franco viam-no como dinâmico, corajoso e com grande capacidade de liderança.

Os seus adversários viam-no como cruel, ambicioso, orgulhoso e altivo. Os seus familiares viam-no como conversador, amistoso e atencioso.

João Franco era muito viajado com muitos contactos no estrangeiro, chegou a encontrar-se com o Papa Leão XIII que teve 25 anos de pontificado e foi o bispo de Roma que atingiu maior longevidade – 93 anos. Também se casou com uma suíça.

Também tinha vários amigos nos círculos intelectuais, nomeadamente Rafael Bordalo Pinheiro.

João Franco, apesar de ser sempre eleito no circulo de Guimarães, tinha um grande apoio na Beira-Baixa, sendo criado um núcleo.

Teve apoio de Vaz Preto, faz aliança com Tavares Proença.

Com o regicídio João Franco vai para o exílio, onde passa por Portugal em 1909 aquando o falecimento de seu pai.

Nessa altura João Franco deixa a política, chega a ser convidado por Dom Manuel II aquando estava no exílio para regressar à política, mas recusa.

João Franco nos seus últimos anos de vida escreve, faz obras em sua casa, dedica-se à agricultura, esgrima e ao associativismo até 1929.  

Comentar