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BeiraNews | Setembro 15, 2019

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Ponto de Vista… por Assunção Vaz Patto

Ponto de Vista… por Assunção Vaz Patto
José Lagiosa

Pela Beira, por Si!

O Distrito de Castelo Branco é mesmo grande. Grande e deserto. Percorremos as terras queimadas e (ainda) encontramos floresta que não ardeu e árvores de fruto e paisagens imensas que enchem a alma. Muitos terrenos sem trato, que não há gente no Distrito. Poucos carros, estradas tortuosas, o Zêzere ao fundo. Chegamos a Álvaro, Aldeia do Xisto, possível foco de turismo e de atracção de pessoas, a mui nobre villa. Álvaro é exemplo do fogo que leva tudo à frente. Foi em 2017 e as pessoas contam do medo, do fogo ao pé de casa, de não haver ajuda, de estarem sozinhos.

Assunção Vaz Patto

Quarenta casas ardidas de repente, a vida toda das pessoas a desaparecer, sem memórias do que já houve. A perda da história da vida é uma espécie de morte interna, porque não nos lembramos de tudo, porque precisamos de objectos para nos recordar, de fotografias, de livros. Casas de segunda habitação só com paredes, como um cancro, porque não há dinheiro para as reconstruir. Foi em 2017 e ainda há lágrimas, muitas lágrimas. E a sensação de desolação. “-Não há nada cá, nem um café, nem uma mercearia, nada. E olhe que já tivemos muita coisa: um correio, mercearias, lojas. Havia casas ricas na agricultura e davam trabalho a muita gente. Arderam também, e ninguém reconstrói.” Porque não há ajuda para as casas de segunda habitação e as ruínas ficam – e as pessoas que vinham aos fins de semana e nas férias não voltam. Há 7 igrejas e capelas em Álvaro, lindíssimas, parte da nossa história, mas não há muita gente para as ver. Há um padeiro, uma vez por dia, que traz bolos e broa de milho e pão em tabuleiros cobertos de pano branco. Há uma camioneta, que vem uma vez por semana às terças feiras. Nos outros dias há táxis para quem os consegue pagar e não tem carro. E os que não têm carro nem dinheiro para o táxi, ficam.

Como se mantém a vida de uma aldeia onde até há pouco tempo havia só uma menina com menos de 18 anos? Como se trazem turistas para uma paisagem de escombros e para uma aldeia onde há casas por reconstruir que só lembram o fogo? As pessoas saem e não voltam. Ao lado há pequenas aldeias ainda piores: 3 habitantes, 1 habitante, 4 habitantes. Como é que se vive numa aldeia de 4 habitantes????? O que importa nas aldeias é a vida comunitária, cheia de apoios, em que toda a gente se conhece e se ajuda. Em Álvaro ainda se diz bom dia a toda a gente, e as chaves ficam nas portas, como deve ser em terras de boa gente. Com 4 pessoas é dificil criar alguma comunidade, e Deus nos livre se se derem mal… E se as pessoas estão isoladas, as comunidades que criam também estão. No entanto, são estas aldeias as bases da rede social do Distrito. Se morrem, antecipam a morte dos centros maiores, porque deixa de haver agricultura e terra tratada, porque os fogos vão aumentar, porque a floresta desaparece, porque das aldeias ficam escombros e nomes que se perdem, de gente que não volta porque a aldeia já não existe.

Para manter as aldeias e a vida destas, precisamos de decidir que as queremos manter. E de criar redes de apoio e de ligação entre os pequenos e os grandes centros: redes de saúde, com equipamentos médicos que saiam dos centros de saúde e venham ter com as pessoas; redes comerciais discutidas com as grandes superfícies que levem mercearias ambulantes; redes de transporte que liguem mais facilmente as pequenas aldeias aos grandes centros e que sejam pensadas de forma a ajudar este processo de ligação social. Para unir as pessoas e permitir que se mantenham nas suas terras, a defender o que é delas e de nós todos.

É este conceito de ligação e de unidade das pessoas, a diversos níveis, que defendi pelo CDS PP numa entrevista à radio Cova da Beira em 27 de Julho de 2019. Apercebo-me que, depois disso, outros partidos foram convencidos desta necessidade de coesão territorial e social, de forma a permitir que a Beira não morra. Fico contente por isso. O problema é demasiado grande para ser só o CDS a defender esta solução. Todos somos poucos.

*Maria Assunção Vaz-Patto, cabeça de lista do CDS às Eleições Legislativas

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