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BeiraNews | Dezembro 10, 2019

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A saúde está doente no Distrito de Castelo Branco?… por Assunção Vaz Patto do CDS

A saúde está doente no Distrito de Castelo Branco?… por Assunção Vaz Patto do CDS
José Lagiosa

A saúde está doente no Distrito de Castelo Branco? É uma resposta difícil. Não conseguimos ter acesso às administrações hospitalares durante a campanha, logo não temos a noção de qualquer problema que possa haver a nível hospitalar ou dos centros de saúde. E como não vemos as administrações na comunicação social a queixar-se, não deve haver nenhum problema mesmo…

Assunção Vaz Patto

Não se pode falar do que não se sabe. Não estive a trabalhar no distrito nos últimos anos, como me lembraram, e as ilações que faça serão sempre ilações. Mas, ao contrário de muitos políticos profissionais, uso o Serviço nacional de saúde (que o CDS sempre defendeu, em moldes diferentes – fomos aliás o único partido que fez uma proposta diferente da do Dr. António Arnaut nos tempos áureos do PREC). Como doente, estive no serviço nacional de saúde do distrito, em Abril de 2019. Passei 10 horas na urgência à espera de ser operada, por não haver material cirúrgico disponível. Não sei como tive a sorte de ser operada nesse dia – geralmente, os doentes têm de esperar 2 a 3 dias para irem ao Bloco operatório. Estive num serviço de Ortopedia onde os enfermeiros estavam de rastos – porque parte da equipa estava de baixa, porque o retorno às 35 horas não tinha incluído mais pessoal, porque há um limite para o que se consegue dar ao doente e ao serviço. Estive num serviço onde os auxiliares de acção médica estavam de rastos – pelos mesmos motivos. Estive num serviço onde os colegas – meus colegas – não tinham esperança de poder melhorar, não tinham material para trabalhar, não tinham acesso a blocos cirúrgicos ou acesso restringido. Conseguiram mesmo assim, tratar-me muito bem. Não conseguiram mudar o colchão em que estive, duro como tudo, nem a comida – e nunca mais vou esquecer uma das doentes da enfermaria que sonhava com uma “comidinha bem feita” antes de cada refeição, para suspirar de desânimo em frente de cada uma das mistelas que nos traziam. Não é comida que se dê a um doente, não se melhora se não se come bem. E isto não são ilações, são factos.

Continuando com os factos, depois de andar por muitos sítios oficiais na internet, conclui que, no fim de 2018, as dívidas dos hospitais do distrito – Unidade Local de Saúde de Castelo Branco e Centro Hospitalar Universitário Cova da Beira – somavam cerca de 27 milhões de euros. Na mesma altura em que descobri isto, a Sra. M, que trabalha comigo, recebeu uma carta a marcar uma consulta de especialidade pedida pelo centro de saúde, mas só agendada para um ano e 2 meses depois. Após reclamar, foi-lhe dito que os médicos se tinham ido embora. Não são ilações novamente, e não são casos isolados. Bastantes médicos se têm ido embora ou estão sobrecarregadíssimos com um número extremamente elevado de consultas, muitas das quais só se conseguem marcar com tempo longo, muito longo de espera. De facto, a avaliação dos resultados publicados pela Comissão de Coordenação do Desenvolvimento da Região Centro (CCDRC) mostra um decréscimo do número de médicos e de consultas durante a última legislatura até 2017- não há dados de 2018. Mas a saída dos médicos para outras regiões do país é conhecida, apesar dos incentivos financeiros, apesar da existência de uma faculdade de medicina na UBI, apesar da necessidade de cuidados de saúde que toda a população sente. Sem uma abordagem integrada, responsável, que privilegie condições de trabalho adequadas, que garanta infraestruturas de suporte, equipamentos realmente renovados e actualizados, que promova e institucionalize um trabalho conjunto, de dimensão acrescida, entre serviços de diferentes unidades hospitalares, bem como entre cuidados de saúde primários e hospitalares, assim como entre cuidados hospitalares e cuidados continuados e paliativos, será muito difícil ter médicos que venham para a região e nela fiquem sem sair à primeira oportunidade.

Somos um distrito envelhecido, com uma velhice cheia de doenças, de remédios (e como faltam os remédios nas farmácias para esses doentes que tanto precisam deles e como ninguém parece importar-se com isso…) de incapacidades, de doentes que precisam de médicos, de cuidados de enfermagem, que precisavam de ter feito uma prevenção em saúde que não fizeram, que precisam de uma série de apoios que não têm, que esperam por consultas durante muito, muito tempo, com doenças que depois já não têm soluções possíveis.

Quem pode vai à privada. Quem tem uma “cunha” no sistema, entra – e não sou só eu que o digo, há um artigo recente de um colega do IPO no Expresso que conta tudo. É fácil falar do SNS quando se vai ao Hospital da Luz, ou quando se pede a alguém que conhece alguém para resolver o problema. Entrámos no mundo de Orwell, em que somos todos iguais, mas uns são mais iguais do que outros.

Por isso, o CDS propõe o acesso para todos a uma rede constituída pelo SNS, pelo sector social e pelo privado, de forma a que não se tenha de esperar pela primeira consulta e não se pague por isso, de forma a que os doentes sejam vistos a tempo e horas, com melhoria dos cuidados prestados à população e com um alivio na pressão do SNS. Porque todos somos iguais, propomos o acesso à ADSE para todos, independentemente de serem ou não funcionários públicos – porque todos temos o direito ao acesso.

Propomos que a administração hospitalar deixe de ser um cargo político e passe a ser feita por gestores qualificados, a quem se peçam responsabilidades pelos resultados obtidos, com mais financiamento e mais autonomia, com simplificação do sistema, redução da burocracia e recursos claramente acrescidos aos meios digitais para melhorar a qualidade dos serviços. Propomos o fim das Administrações Regionais de Saúde (ARS), para agilizar o sistema. Propomos que a subida nas carreiras no SNS e a classificação de serviços seja feita por observadores independentes e por meritocracia. Propomos que o sistema de avaliação em saúde seja feito de outra forma, que o utente volte a ser o doente, que o serviço se concentre em melhorar o doente e não em conseguir números.

Propomos ainda que os hospitais do distrito se organizem de forma a conseguirem ter massa crítica para criarem internatos de formação especializada – e conseguirem formar os elementos que irão constituir o quadro do serviço, captando médicos na altura em que se estabelecem e se formam – maioritariamente durante o internato médico. E propomos que se promova uma visão de futuro, oferecendo-se condições atractivas para jovens especialistas, que permitam captar jovens médicos para o distrito. Propomos ainda o reforço da ligação entre os Hospitais, os Centros de Saúde e o Ensino Superior – Universidade e Politécnicos, insistindo na investigação clínica como uma das formas de interessar e reter os médicos na região, para além de permitir captar mais financiamento e melhorar a qualidade dos serviços. Em todo o mundo, a investigação clínica aumenta a qualidade da prestação de serviços clínicos.

Somos democratas cristãos: acreditamos nas pessoas e na sua capacidade de mudar o mundo. Acreditamos na defesa da vida e dizemos não à eutanásia bem como ao encarniçamento terapêutico. Propomos um reforço dos cuidados continuados e dos cuidados paliativos para o distrito e insistimos na necessidade imperiosa da criação de um plano distrital para a demência com forte trabalho multifacetado envolvendo a educação para a saúde e a prevenção, a promoção de vias de tratamento integrado dos doentes, o apoio à criação de lares adequados, o estímulo à formação e investigação clínica na área, o apoio ao cuidador informal e às IPSS que estão no terreno. Não queremos depósitos de velhos, queremos manter as pessoas autónomas e em suas casas o mais tempo possível – e propomos a criação de uma rede de apoio ao idoso isolado – e em ambientes dignos no seu fim de vida.

Queremos um Distrito mais saudável, mais apostado na prevenção em saúde, mais apoiado na doença, mais igual no acesso à saúde. Precisamos do apoio de todos para conseguirmos estes objectivos. Porque somos todos iguais, porque todos merecemos o melhor na saúde e na doença. Porque só assim vale a pena, só assim faz sentido.

* Assunção Vaz Patto, cabeça de lista do CDS nas Eleições Legislativas em Castelo Branco

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