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BeiraNews | Junho 1, 2020

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Museu do Fundão evoca os migrantes do Aquárius

Museu do Fundão evoca os migrantes do Aquárius
José Lagiosa

Dia Internacional dos Museus

O Museu do Fundão comemorou o dia Internacional dos Museus, este ano subordinado ao tema “Museus para a igualdade: diversidade e inclusão” com a feitura de um painel dos retratos do grupo de migrantes resgatados em 2018, pelo navio humanitário Aquárius e que foram acolhidos por Portugal.

O Fundão foi a sua nova terra de oportunidades para estes dezassete homens e duas mulheres provenientes da Eritreia, da Nigéria, do Iémen e do Sudão.

Pedro Salvado

Acolhidos pelo Município do Fundão mais do que metade  fixou-se na cidade da Gardunha  onde vive e trabalha.

O Museu foi um dos seus primeiros portos de afetos durante o seu período de adaptação numa experiência única de permuta e de porosidade cultural consideram os organizadores.

As fotografias põem em contraste a bicromia das captações em viagem com os rostos coloridos das novas geografias dos seus quotidianos.

Sobre este memorial escreveu Pedro Miguel Salvado, diretor do Museu do Fundão, Museu do Território:

A PAREDE DA MEMÓRIA. ROSTOS SEM MÁSCARAS NA LUZ DA SERRA

“Esta instalação é um singelo registo comparativo de rostos que venceram desertos e mares num mapa tecido de circunstâncias de medo, tristeza, fome e desalento. Os rostos enrugam quando pensam nas partidas, nos ondulantes caminhos líquidos e de barro, no relógio vital de muitas luas e sóis, nas vozes murmuradas e nos silêncios impostos. Os rostos iluminaram-se, agora, nesta terra de cultivo, de raízes renovadas, em que o cinzento da viagem foi banido e a cor venceu.

Detenhamo-nos no brilho destes olhos. As miradas são outras confirmando que os olhos são o espelho da alma. E, passados que foram todos os nomadismos forçados, o quotidiano celebra-se com olhares luzentes numa lenta sedentarização da Esperança.Os retratos do caminho são frios, quais textos prova dos tráfegos sofridos, captando não uma identidade, mas apenas faces quase incógnitas, números para as estatísticas do ocidente. Mas estas primevas fotografias remetem para um nome, para uma terra e para uma cultura. Um retrato é sempre um registo, a projeção de um interior como lemos em Mateus: “ A candeia do corpo são os olhos; de maneira que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz.” 

Painel

Quando este grupo de migrantes, resgatados pelo navio humanitário Aquarius, chegou à serra da Gardunha, acolhido pelo Município do Fundão, o Museu foi um dos seus primeiros portos de afetos. E, numa manhã luminosa, dezassete homens e duas mulheres, provenientes da Eritreia (14), da Nigéria (3), do  Iémen (1) e do  Sudão (1), confrontaram os objetos com outras leituras e geografias,  confirmando o eurocentrismo  do mapeamento  dos nossos discursos. Foi uma experiencia única de permuta e de porosidade cultural. No grupo havia um jovem pintor que tingiu de cor e de sorrisos as folhas brancas; outro falou dos patrimónios da Eritreia, como as igrejas de Axum ou  Lalibela, confirmando a nossa ignorância e avivando sonhos esquecidos. Outro, Jonbom, antes da “viagem” era professor das primeiras letras e saberes na sua aldeia natal. Já a visita findava quando olha para um monte de jornais e de revistas e pede, em inglês de sobrevivência, se podia levar as nossas futuras reciclagens que nos libertam a consciência ambiental. Aumentar-lhe-iam a esperança de vida e a validade das grafias, dos títulos, das fotografias das coisas, das casas, dos animais e das paisagens impressas com a construção de um dicionário TigríniaÁrabe e Inglês-Português. Para o professor etíope, o Museu foi uma ponte qual torre de Babel, diferente das dos campos de refugiados ou dos caminhos da viagem.

A plástica, fixada nas fotografias captadas por Miguel Proença, atesta as origens etimológicas da palavra italiana ritratto “fazer a efígie de uma pessoa” mas, também a do latim  retractus, particípio passado de retrahere verbo com o significado de “voltar atrás” com variados sentidos figurados como reduzir, converter, abreviar, reviver qualquer coisa ou trazer de novo à luz…

O grande fotógrafo de identidades fugidias, Sebastião Salgado, ao comentar a sua obra “Vidas suspensas”, em que apreende o quotidiano dramático dos refugiados sírios, disse: “Estas pessoas não são apenas números estas pessoas têm um nome e uma história. Tiveram uma casa em tempos. Tiveram uma vida. Hoje, são chamados apenas de migrantes.”

Estas imagens de identidades estilhaçadas revelam também os novos olhares dos residentes numa casa – porto de abrigo do renovado e antigo seminário do Fundão – catalisam histórias de saudade e de esperança. Seminário é uma palavra de vida, Seminarium é o “viveiro de plantas”, local de sementeira de ideias e de sonhos. Mais de metade deste primeiro grupo de migrantes enraizou o seu futuro nos horizontes da Gardunha e são nossos concidadãos, com muitas histórias para revelar no diálogo infindo da diversidade da nossa identidade coletiva. Há que saber aprender a escutá-las.  Um Museu é uma casa de chegadas, de partidas, de regressos, de migrações: escuta sempre as permanências”.

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