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Escola de Mulheres ergue “O Punho” em homenagem a Bernardo Santareno e Fernanda Lapa

A estreia da peça “O Punho”, de Bernardo Santareno, pela Escola de Mulheres, na quinta-feira, em Lisboa, concretiza a homenagem ao dramaturgo, nascido há cem anos, e a necessidade de “honrar o pedido e a vontade” da encenadora Fernanda Lapa.

Foi assim que os atuais diretores artísticos da Escola de Mulheres, Marta Lapa e Ruy Malheiro, definiram à Lusa o processo de pôr em palco a versão cénica concebida por Fernanda Lapa, para a peça “O Punho”, de Bernardo Santareno, “grande amigo” da atriz, encenadora, diretora e fundadora da companhia, que morreu no passado dia 06 de agosto, aos 77 anos.

Fernanda Lapa ultimara a versão cénica da obra, a derradeira do dramaturgo, durante o primeiro confinamento de resposta à covid-19. E tinha por vontade a sua estreia, no dia do centenário do nascimento do autor de “O judeu”, 19 de novembro. Para a companhia, era uma necessidade “honrar o pedido e a vontade expressa” da mulher que a fundou, há 25 anos.

“Com toda a dificuldade que este texto traz e com a proposta cénica que depois veio, acabou por ser uma necessidade”, levar a peça a palco, sublinha Marta Lapa, que também assumiu a direção artística da companhia, após a morte da mãe.

“Mais do que um ato de coragem” ou “uma dupla homenagem”, era “absolutamente necessário fazer isto. Ponto.”, disse Marta Lapa à agência Lusa. “Portanto, estamos a fazer o que tinha de ser feito, e com alegria, com vontade, com…”, acrescentou a também atriz, cedendo a um prolongado suspiro.

O ator André Levy assinalou, por seu lado, que esta é uma forma de “celebrar Bernardo Santareno, Fernanda Lapa, de celebrar o teatro, que é também uma função deste”. E acrescentou: “E de nos celebrarmos enquanto grupo”.

Integrada nas comemorações nacionais do centenário de nascimento de Bernardo Santareno, que Fernanda Lapa organizava e dirigia, “O Punho”, “uma criação conjunta” de toda a equipa que intervém na peça”, é posta em palco como “a última encenação que a Fernanda queria muito ter feito”, disse Marta Lapa à Lusa.

“Era, finalmente, a sua homenagem ao Santareno, cujas comemorações de centenário de nascimento foram organizadas e iniciadas por ela”, o que levou a que “a peça fosse posta em palco mediante os desejos expressos de Fernanda Lapa ainda em vida”, acrescentou.

O desejo de que fosse “uma criação coletiva, com os atores a envolverem-se em tudo, desde o ‘acting’ até às propostas de som e aos figurinos”.

Um trabalho “enormíssimo” de Fernanda Lapa, que ainda terminou também o espaço cénico e o tipo de figurinos, observou Marta Lapa.

“E, ao fazê-lo, estava a colocar logo isto [a peça] numa zona não naturalista, um sentido que ‘extravasámos'”, como ao estilizar “um pouco mais os figurinos”, “ainda que tenhamos seguido na direção apontada por ela”, afirmou.

Foram as pistas deixadas pela atriz e encenadora, que conhecera o psiquiatra António Martinho do Rosário, nome próprio do dramaturgo, quando, na adolescência, com 15/16 anos, depois de ter realizado “uns testes psicotécnicos que deram uns resultados esquisitos”, foi aconselhada a consultar o médico, contou à Lusa a filha da encenadora.

Estava dado o mote para a “amizade e cumplicidade enorme” que se foi sedimentando, cada vez mais ao longo dos tempos, entre a atriz e “o ser humano incrível” que era o médico e dramaturgo, como Fernanda Lapa contara à Lusa, em março último, por ocasião do Dia Mundial do Teatro, quando coube à atriz ler a mensagem da Sociedade Portuguesa de Autores, a propósito da efeméride.

Uma amizade à qual a ideologia de esquerda e a militância antifascista de ambos não era alheia.

Fernanda Lapa foi militante do PCP e, no pós 25 de Abril, António Martinho do Rosário militou ativamente no Movimento Democrático Português – Comissão Democrática Eleitoral (MDP / CDE).

Sem ter sido professor de Fernanda Lapa, como habitualmente é referido, Bernardo Santareno – ou António Martinho do Rosário – foi também colega de Fernanda Lapa na Fundação Sain, uma organização de apoio e integração de cegos adultos, sobretudo de homens que perderam a visão durante a Guerra Colonial.

Fernanda Lapa exercia funções de assistente social, a sua formação académica inicial, e o dramaturgo a de médico psiquiatra.

Seguindo apenas as pistas deixadas pela encenadora a Escola de Mulheres iniciou os ensaios de “O Punho”, em 29 de setembro.

Passo a passo, os atores construíram uma peça “não panfletária”, que, nas palavras de Marta Lapa, “nunca foi o objeto de trabalho da Fernanda”, mas que acaba por falar de “temas que pautaram o seu trabalho e estiveram na base da fundação da Escola de Mulheres” e que cada vez continuam “mais atuais”: questões sociais, políticas, de género, entre outras.

A peça constitui assim “uma dupla homenagem ao dramaturgo e à atriz”, “porque era o espetáculo que ela [Fernanda Lapa] queria ter feito”.

Centrada na reforma agrária, a peça “O Punho” torna-se “absolutamente contemporânea pelas questões que levanta”, e porque fala “de um período que historicamente foi branqueado”, afirmou Marta Lapa.

“A reforma agrária é uma coisa linda que aconteceu no nosso país, e se falarmos com miúdos de 20 anos, poucos sabem o que é”, disse.

Um dos atores mais jovens do elenco disse à Lusa ter tido conhecimento daquele período apenas com o papel que desempenha na peça.

Porém, embora a ação se centre no antes, durante e depois da Reforma Agrária, a Guerra Colonial também está sempre presente.

Maria do Sacramento (Margarida Cardeal), a criada, Dona Mafalda ((Maria d´Aires), a patroa rica, R.Gastão (André Levy), marido de Dona Mafalda, Catarina (Marta Lapa), Guilherme (Hugo Nicholson), João Saramago (Vítor Alves da Silva), Zé Rovisca (André Leitão) e o Narrador (Ruy Malheiro) são as personagens da versão cénica de “O Punho” que a partir de quinta-feira está em cena no Clube Estefânia, em Lisboa.

A música e a direção de coro são de Janita Salomé, “convidado, por motivos óbvios, por Fernanda Lapa”, disse a filha da encenadora.

Escrita por Bernardo Santareno no ano da sua morte (1980), o texto de “O Punho” viria a ser publicado postumamente sete anos mais tarde, em 1987.

O motor central da ação é a luta de classes no contexto da Reforma Agrária no Alentejo. As duas personagens principais – a camponesa Maria do Sacramento e a latifundiária Mafalda são, simultaneamente, protagonistas e antagonistas.

“Duas mulheres fortíssimas em lados opostos da barricada e que são das mais belas e comoventes personagens do teatro português”, lê-se no ‘blog’ dedicado ao centenário do escritor.

A ação atravessa três anos, desde o período anterior até à fase seguinte da Reforma Agrária.

É uma fase “marcante e fraturante da história de Portugal dos anos de 1970 e que, atualmente, quase se tornou um tabu”, lê-se no ‘site’ do centenário. Agora “é transposta para a cena teatral sem maniqueísmos, ressalvando a humanidade das personagens levadas a agir pelo seu sentido de classe, pelo sofrimento e pelos afetos”.

Na versão cénica que construiu, Fernanda Lapa colocou uma personagem – Narrador – que não consta da obra de Santareno e a qual tem um discurso político, a favor da Reforma Agrária.

Sem nunca terem falado sobre isso com a encenadora, Marta Lapa e Ruy Malheiro estão convictos de que o Narrador “é a voz da Fernanda”.

“É a [sua] tomada de posição perante a entrega deste texto e enquanto ato provocador”, enfatizou Marta Lapa, embora sublinhando não terem enveredado por um “espectáculo panfletário”.

“A zona de trabalho da Fernanda foi sempre levantar questões. Mais do que apresentar respostas”.

Marta Lapa sublinha ainda a “contemporaneidade” da obra, numa altura em que “o fascismo está aí”. “Não está à espreita, está aí. No presidente brasileiro, no presidente dos Estados Unidos que se recusa a abandonar o lugar, na Áustria. Até cá. Está em toda a parte e há que assumir isso”, enfatizou.

Numa sala em que a plateia se pode sentar de frente para o palco e em duas filas de cadeiras na lateral da sala, “O Punho” joga com a ambivalência do espaço, pondo as protagonistas fora de palco, sob um teto onde caem espigas de trigo, enquanto um coro dramático – um coro trágico que vai sublinhando ou suscitando a ação à maneira dos Gregos – canta em verso “Quem viu o Zé Sacramento (…) foi p’rá vida militar. (…) Voltou morto, partiu vivo”.

Neste trabalho de grupo, Marta Lapa sublinha ainda o trabalho de “outros cúmplices”, como Paulo Santos, desenhador de luz, que já colaborava com Fernanda Lapa, o amigo José Manuel Marques, que está a fazer o registo fotográfico da peça e que vai filmar o espetáculo, e o autor Valério Romão, que também fará o registo fotográfico de “O Punho”.

Questionada pela Lusa se não pensam editar a versão cénica de Fernanda Lapa, Marta Lapa, parou um pouco e respondeu: “Ainda não pensámos nisso, porque não temos tido tempo”. Mas a possibilidade está em aberto.

A morte repentina de Fernanda Lapa em 06 de agosto deixou, contudo, pouco tempo à companhia, que se viu obrigada a tratar de questões legais e outras inerentes à organização.

Uma coisa é certa: O trabalho iniciado por Fernanda Lapa, na companhia, é para continuar apostando também em jovens, garantiu.

“O Punho” é, também, assim, uma demonstração da vontade de resistir à morte de Fernanda Lapa, que fundou a companhia em 1995, com Isabel Medina.

“A não ser que nos partam as pernas”, observou Ruy Malheiro, que, desde 2014, é produtor da Escola de Mulheres e também sócio da companhia.

“O Punho” vai estar em palco até 20 de dezembro, com sessões de quarta-feira a sábado às 20:00 e, aos domingos, às 17:00, no Clube Estefânia, na rua Alexandre Braga, em Lisboa.

Esta semana, a estreia, na quinta-feira, e a sessão de sexta-feira terão início às 20:00.

Excecionalmente, por causa das medidas restritivas, as sessões do próximo fim de semana realizar-se-ão na segunda e na terça-feira, dias 23 e 24 de novembro, às 20:00.

*LUSA

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