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Setor da cultura pede medidas urgentes que evitem a “morte certa”

Centenas de trabalhadores dos espetáculos manifestaram-se hoje em Lisboa, num protesto que alertou para situações de fome e miséria, a perda de trabalhadores qualificados para outras profissões e uma “morte certa” do setor se nada for feito.

Esta manhã, em frente à entrada da praça de touros e sala de espetáculos do Campo Pequeno, várias dezenas de caixas pretas, usadas para guardar o material dos técnicos de palco e assistentes de espetáculos, alinhavam-se em longas filas, erguidas ao alto, identificadas com o nome das muitas empresas ali presentes, todas elas fechadas, numa imagem de imobilidade que é o retrato do momento que atravessa o setor.

Os técnicos estavam no interior da praça, sentados nas cadeiras ali colocadas à distância regulamentar exigida pela Direção-Geral de Saúde (DGS), para ouvir intervenções de artistas, representantes associativos e promotores de festivais, a traçarem uma imagem de crise e a apelarem para medidas urgentes do Governo que não deixem morrer a cultura em Portugal.

“É uma situação muito trágica, porque deixámos de estar presentes no discurso, aliás nunca o estivemos, e é preciso [saber] se o Governo e os decisores políticos assumem que destroem a cultura num país, a identidade de um país, centenas de milhares de empregos, de vidas”, disse à Lusa Sandra Farinha, da direção da Associação de Promotores de Espetáculos, Festivais e Eventos (APEFE).

Sandra Farinha foi a primeira a subir ao palco, para questionar “quem assume a decisão de acabar com a cultura”, que está “a colapsar” no contexto da pandemia de covid-19, com 130 mil trabalhadores com postos de trabalho em risco num setor que estima perdas de 90% até ao final do ano, estando neste momento já muito próximo desse valor.

À Lusa, a representante sublinhou a especialização destes trabalhadores, que estão agora a procurar empregos noutras áreas para conseguir sobreviver.

“Há técnicos que estão a fazer jardinagem e a trabalhar nas obras, artistas a vender instrumentos e há muito desemprego. É urgente que a cultura passe a ser um bem essencial neste país e para quem nos governa”, disse, acrescentando que são necessários apoios a fundo perdido da chamada “bazuca europeia”.

Sandra Farinha lembrou os apoios dados noutras áreas: “Quando há uma tragédia na agricultura, nas pescas, na banca, na TAP, o Governo vem salvar, tem de salvar a cultura”.

Pedro Magalhães, da Associação Portuguesa de Serviços Técnicos para Eventos (ASPTE), disse à Lusa que a perda de trabalhadores especializados da área dos espetáculos para outras profissões é um fator de risco para a própria sobrevivência das empresas, uma vez que o custo da sua formação, que demora cerca de dois anos, é elevado e não é garantido que regressem quando acontecer a retoma da economia, que será necessariamente lenta.

“Neste momento o que nos está a acontecer é uma morte certa, se nos mantivermos desta forma sem qualquer apoio, e perdermos todos estes eventos e toda esta capacidade de trazer para o nosso país estes eventos que muito dinheiro deixam em Portugal. Se nada acontecer até ao final deste ano, pelo inquérito que fizemos aos nossos associados, 50% das empresas vão fechar e, consequentemente, postos de trabalho. Cerca de 1.200 postos de trabalho em causa”, disse.

A economia passou a ser a “língua” mais falada no setor. Foram muitas as intervenções que apresentaram números – de trabalhadores em risco, de perdas estimadas, de valor económico criado ou de impostos pagos – para lembrar ao Governo que o setor é um contribuinte líquido da economia nacional, pelo que não pede subsídios, mas investimento, como sublinhou Álvaro Covões, promotor de festivais e membro da direção da APEFE.

“Estamos a viver uma pandemia, precisamos que olhem para nós como pessoas, não como NIF [números de identificação fiscal]”, disse Álvaro Covões, que criticou que a cultura valha 0,39% no próximo Orçamento do Estado e que o plano de recuperação nacional recentemente apresentado “não tenha uma linha sobre cultura”.

Em intervenções previamente gravadas, os atores Ana Bola e José Pedro Gomes falaram em situações de fome e miséria vividas por pessoas que há meses não veem entrar qualquer rendimento nas suas casas.

O mesmo foi sublinhado pelo ator José Raposo, que lamentou a ausência da ministra da Cultura no protesto de hoje. A governante foi, tal como o primeiro-ministro, convidada a estar presente, conforme confirmou Sandra Farinha.

A pandemia de covid-19 já provocou mais de 1,3 milhões de mortos no mundo desde dezembro do ano passado, incluindo 3.824 em Portugal.

*LUSA

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