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Os idosos são felizes no Natal?

Em época festiva, de união, sentido de comunidade, amor, partilha e família, sabe-se que os nossos avós, são os mais esquecidos nesta fase.

Esquecidos, sim. E muitas vezes abandonados!

Rita Baptista Antunes

Triste tratar desta forma, quem outrora tratou de nós com tanto carinho e amor. A realidade é esta. Os filhos abandonam muitas vezes os pais já com idades avançadas, tanto em estruturas de residências de idosos – quando pelo menos se preocupam minimamente com os pais – ou então simplesmente, junto à época do natal, vão com os pais ao hospital, e deixam-nos internados, sozinhos, numa cama de hospital, só porque dão trabalho. Uma vez mais, uma triste realidade, mas é uma realidade.

Trabalho com casas de repouso, já há muitos anos, e vejo pessoalmente estes abandonos a acontecer.

Casos como, colocam os pais num lar de idosos, e nunca mais aparecem, ou pior, ficam meses a fio sem pagar qualquer mensalidade, estando os proprietários dos lares a suportar as despesas dos “pais dos outros”, sabendo que uma casa de repouso não deixa de ser um negócio e de ter que gerar lucro, mas os próprios proprietários de estruturas destas serem pessoas que também são pais e filhos, com coração e muitas vezes, a dar o amor que os idosos nunca receberam.

Claro está, também há muitos proprietários de estruturas residenciais para idosos, que são desumanos e que maltratam os idosos! Sabem de quem é a culpa? De quem não protege os idosos. E sabem quem para mim são esses responsáveis? Os familiares! Sim, os familiares. São eles que têm a obrigação de acompanhar e proteger quem já não o pode fazer por si.

Poucas não foram as vezes, que eu saí de uma casa de repouso – que de repouso pouco tinha – e fiz queixa de abusos que assisti, ou por falta de higiene, ou por relatórios de idosos desesperados que eram maltratados e que tinham fome, ou ainda, de entrar numa sala de convívio e contar os idosos e eram mais do dobro das camas disponíveis, e quando subia aos quartos o que encontrava? Colchões de baixo de camas, e com sorte, sofás cama.

Obviamente que isto não acontece na maioria das estruturas residenciais para idosos, aliás, os que têm alvará de funcionamento emitido pela Segurança Social, e não só, são equipamentos com condições, acompanhamento médico e de enfermagem, têm actividades e vêem-se efectivamente idosos felizes e satisfeitos, no entanto, não deixam muitos de passarem o Natal na companhia dos funcionários da Casa de Repouso, e não em família como gostariam.

Em que é que eu intervenho nestes casos?

Como já referi, os filhos dos utentes, por vezes deixam de pagar a mensalidade dos idosos, deixando-os à mercê da boa vontade dos proprietários das casas de repouso, o que nem sempre é comportável financeiramente para uma estrutura pequena, de suportar esses idosos, ao que neste caso, cabe-me a mim, fazer a cobrança dessas mensalidades, e/ou penhorar bens que haja, ou do próprio utente, ou dos seus familiares.

A fase sempre mais complicada, é a de ter de deixar o idoso “à porta” do seu cuidador, ou ter de fazer queixa junto do Ministério Público, e da Segurança Social, da prática do crime de abandono, é punível até 5 anos de pena de prisão, ou da violação de obrigação de alimentos, até 2 anos de pena de prisão, em que os familiares, dependendo da relação familiar que têm com o idoso, poderão ser declarados indignos sucessoriamente, sim, porque afinal, fazem isto, a maioria das vezes, para ficarem com reformas ou bens dos idosos, e simplesmente não terem direito a qualquer herança desse idoso.

Na minha óptica, ainda existem poucos mecanismos para proteger os idosos. A justiça ainda é muito benevolente com toda a prática de crime que tenha haver com a relação familiar, tanto na aplicação da lei, como na própria moldura pena. A prática de abandono ou maus tratos a idosos, é um crime enquadrado como sendo apenas “violência doméstica”, como algo simples e um dado já adquirido, na maioria das vezes.

A família, não deixa de ser, nem nunca deixará de ser, o principal alicerce da comunidade. De lá, é que recebemos tudo o que precisamos para viver num mundo já por si, disfuncional.

*Rita Baptista Antunes

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