23.3 C
Castelo Branco
Sexta-feira, Maio 7, 2021
No menu items!
InícioCulturaMaria João Fernandes expõe na Casa Amarela em Castelo Branco

Maria João Fernandes expõe na Casa Amarela em Castelo Branco

SONHOS DO DIA E DA NOITE A MINHA COLEÇÃO O MEU UNIVERSO

Em 2016, e na imprensa de Castelo Branco, fiz uma proposta de cedência da minha Coleção de Arte Contemporânea à cidade de Castelo Branco, com a qual tinha já desenvolvido importante colaboração na área da cultura, e então com o incentivo do poeta Gonçalo Salvado.

Anos depois, este conjunto apresenta-se ao vivo a Castelo Branco pela mão do Vereador da Cultura Carlos Semedo, de novo na perspetiva do vínculo a uma cidade que se está a notabilizar pela sua dinâmica cultural e pela presença de importantes polos museológicos como o Museu Tavares Proença Júnior, o Centro de Arte Moderna e o Museu Cargaleiro.

Exposição de que sou Comissário e que tem como Comissário adjunto Gonçalo Salvado.

Uma Coleção em busca de um destino, poderia ser o lema desta sua nova mostra pública na Casa Amarela, após a exposição na Fundação D. Luís I de Cascais em 2020, seguindo-se a outras, em 2014/15 na Biblioteca Nacional de Portugal e no Museu Municipal de Coimbra.

Trata-se de uma muito particular exposição, com o título Sonhos do Dia e da Noite, reflexo de cerca de quarenta anos de crítica de arte e de poesia, expressão antes de mais de um diálogo com a arte sob o signo do amor e também do reconhecimento e da generosidade dos artistas.

As minhas escolhas eletivas recriam o meu universo, feito não de fragmentos de outros universos, mas de um encontro, de simultâneas ressonâncias poéticas, ao espelho do imaginário.

“Once Upon a Time”, o quadro de Luís Melo, na abertura da exposição, meu retrato aos três anos, conta uma história, a história de 40 anos de Arte e Crítica, sob este impulso, esta inspiração da poesia, uma revelação da minha infância. Obsessivo, constante, irruptivo diálogo com a Arte.

O meu Museu Imaginário foi-se povoando das imagens fundadoras do meu universo, captadas no labiríntico e inesgotável fio da escrita. O diálogo com a arte e os alicerces mentais do seu conhecimento foram-se estruturando em grandes temas, alguns dos quais a exposição documenta, grandes capítulos da minha crítica de arte: Caligrafias traduzindo o diálogo escrita/pintura, poesia/pintura no século XX, na origem de um livro: Caligrafias, a Nascente dos Nomes, Universos Femininos que já tomaram forma em duas exposições, Artistas Poetas e Poetas Artistas, tema de uma grande exposição na Fundação Gulbenkian de Paris, em 2013, Lirismo e Paisagem, Herança e Presença do Surrealismo, Caminhos da Abstração e Novas Figurações e Arte Primitiva e Arte Contemporânea.

Estão patentes alguns dos quadros da minha vida, “Anima” de Moniz Pereira, artista histórico do Surrealismo português, representado no “cadavre exquis” da Fundação Calouste Gulbenkian, “Romance” de António Sampaio, espécie de testamento lírico do notável pintor já desaparecido, a grande tela abstrata de Noronha da Costa, síntese metafísica, mística e poética do seu universo, o meu atelier da Sé em cúmplice proximidade com o Tejo, por Manuel Viana que conheci nos anos de Paris. Sem esquecer a inocente casa de Alice (Tita Costa). No pórtico da minha memória, da minha gratidão e do meu amor,os retratos dos meus pais a quem simbolicamente a exposição é dedicada: do meu pai José Augusto Fernandes (1920-1978), histórico Ministro de Abril e ser humano excecional, por Dorindo de Carvalho e de minha mãe Maria Luísa, a quem tanto admiro e tanto devo, na soberba interpretação, fidelidade à sua essência secreta, do pintor sérvio Branislav Mihajlovic.

À volta deste lugar geométrico dos meus sonhos e das minhas coordenadas líricas e poéticas organizam-se num rodopio de mágicas e fascinantes expressões do prodígio, as imagens fundadoras do meu universo, e simultaneamente do imaginário do século XX.

O laço que originalmente unia escrita e imagem, expressão das antigas escritas pictográficas é evocado no grande conjunto das “Caligrafias” que abre a exposição, com os gestos cosmogónicos e inaugurais de Eurico Gonçalves em “Estou Vivo e Escrevo Sol” (um quadro e uma série batizados por mim na década de 80 em homenagem ao poeta António Ramos Rosa), de Francisco Laranjo, os pequenos cometas e as escritas caudalosas de Ana Hatherly, o info desenho de Ernesto Melo e Castro, o alfabeto plástico e vibrante de João Vieira e a musical interpretação de Bertino.

E na osmose de todos estes universos, justifica-se a vizinhança do “painel” dos artistas poetas e poetas artistas, em sintonia com o tema da exposição por mim comissariada e apresentada na Fundação Gulbenkian de Paris, em 2013 (o Catálogo está patente na mostra). À celebração da luz e da poesia, de Mário Dionísio, à amorosa floração do desenho de Julio a quem dediquei a minha primeira monografia,respondem o ímpeto caligráfico de Ana Hatherly e de Ernesto Melo e Castro, o desenho de Gonçalo Salvado, o traço de fulgurante síntese poética de António Ramos Rosa e o poema desenhado de Joana Lapa (pseudónimo de Maria João Fernandes).

Estão presentes as expressões de um feminino eterno, entre muitas outras,a celebração do elo ancestral entre o rosto e o fruto,no desenho que inaugurou a conhecida série da pintora Graça Morais, a luminosa evocação de Giverny e de Monet, de Gracinda Candeias, a poética da natureza na fotografia de Teresa Huertas ou na tapeçaria de Manuela Justino, a primaveril irradiação das cores originais do Paraíso, de Sonia Delaunay e Cristina Valadas, a “ilha velada” de Carmo Pólvora, a “teia infinita”, metáfora plástica da existência, de Inês Wijnhorst, a visão caleidoscópica do amor em“Love Affair” de Isabel Garcia, a feminina visitação do tempo, da memória e do amor de Matilde Marçal ou a evocação do Cântico dos Cânticos de Emília Nadal.

O amor, chave da civilização, fonte secreta de todas as imagens, destas imagens, desenha as suas sombras e irradia a sua cintilação obscura no matinal traço de Gonçalo Salvado, na sedução do corpo da escultura de Margarida Santos, do desenho de Francisco Simões e da pintura de Gil Teixeira Lopes ou no auto de paixão de Isabel Lhano.

Cruzeiro Seixas Retrato simbólico de Maria João Fernandes

Na proximidade do amor, o conjunto que igualmente celebra o lirismo, na escultura de Rodrigo e Isabel Cabral, nas obras de artistas como Júlio Resende (uma ilustração para o livro de poesia Dias de Seda de Maria João Fernandes), António Carmo, Roberto Chichorro, Humberto Marçal e Guilherme Parente.

No núcleo que representa o Surrealismo, seus herdeiros, Cruzeiro Seixas, Carlos Calvet, Raul Perez, Carlos Carreiro, Armanda Passos e Alfredo Luz, mestres na arte de interrogar o invisível, dele extraindo a pura revelação do perturbador avesso das aparências.

Os caminhos da abstração estão delineados no universo “kandinskiano” de Manuel Viana, contemporâneo da grande retrospetiva de Paris, que ambos visitámos, e inspirou esta sua particular visão do espiritual na arte, e na lírica expressão da pintura de Alberto Reguera, António Garcia Romão, Benvindo Carvalho, Carlos Rocha Pinto ou Manuel Malheiro na luminosa respiração da sua escrita plástica e ainda nas aproximações à geometria, de Nadir Afonso ou Carlos Calvet, fulgurantes depurações do visível. Ausência e presença, figuração e abstração, fim e princípio. Na grande espiral do tempo e do espaço, todos os contrários se diluem. Como parecem afirmar as Novas Figurações que reúnem obras de Antonio Seguí, expoente da figuração narrativa internacional, Gabriel Garcia, Eusébio Almeida e João Alfaro.

Uma inspiração para o século XX, o mágico elo à arte primeva é evocado nas criações de José de Guimarães, pintura e escultura, de uma rudeza mágica, onde vibram, como na gravura de David de Almeida, ou na escultura de Paulo Neves, a inocência e a alegria do começo, verdadeira inspiração da arte moderna, ecoando igualmente na expressionista energia da “Caixa Mágica” de Sobral Centeno ou na homenagem a Matisse de Dorindo de Carvalho.

Esta exposição representa,antes de mais, uma coleção de sonhos, a coluna vertebral de uma presença feita de muitas ausências, as centelhas de um sol disperso nos meandros de um labirinto onde todos habitamos. As imagens são o plástico rosto da escrita, a sua luminosa e única respiração, e é à descoberta dessa escrita, amante, audaciosa, e que se deseja perene, que elas convidam.

*Maria João Fernandes, Poeta e Crítica de Arte.

Leave a Reply

- Advertisment -

Most Popular

COMENTÁRIOS RECENTES

Paula Alexandra Farinha Pedroso on Elias Vaz lança livro sobre lendas e mitos de Monsanto
%d bloggers like this: