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Terça-feira, Setembro 21, 2021
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DIELMAR – Para lá das banalidades

Interioridades – mais mitos do que factos

O encerramento da DIELMAR proporcionou (e assim continuará por mais algum tempo) um “espetáculo” mediático a todos os títulos deplorável em que governantes, oposição, sindicatos, media e alegados “líderes de opinião” se apressaram a inundar a opinião pública com um festival de banalidades e, acima de tudo, omissões e acusações descabidas em relação à empresária que liderou a DIELMAR nos últimos anos.

Tive oportunidade de conhecer a Dra. Ana Paula Rafael muito superficialmente, mas o suficiente para compreender o seu forte empenho em, “contra tudo e contra todos”, manter viva uma empresa cuja importância económico-social para Alcains e território da Beira Interior Sul em geral era, obviamente, muito grande.

Esse “fardo” foi carregado pela empresária numa altura da sua vida em que já não precisava de o fazer, conseguindo manter um negócio de raíz familiar muito para além do que seria de esperar, tendo em conta o sector de actividade em causa.

(Verdadeiras) Identidades expostas

Como sempre sucede (perdoem-me a banalidade), é na dificuldade que se revelam virtudes e defeitos. Ministros apressaram-se a esclarecer que o Estado já não investiria mais numa empresa inviável e cuja Administração (que inclui um representante do Estado em permanência há vários anos) seria pouco transparente! Um contributo, sem dúvida, muito positivo para eventuais investidores que quisessem “salvar” a empresa… Mas claro, havia que salvaguardar a imagem de um Estado que, indevidamente, injectou dinheiro dos contribuintes numa iniciativa privada.

Os necrófagos que, supostamente, representam os interesses dos trabalhadores, reproduziram o seu modelo de agitação de bandeiras funerárias, culpabilizando os mesmos de sempre e exigindo a todos menos os próprios, que assumam não se percebe bem que responsabilidades.

A comunicação social, inebriada com tal “festim”, depressa corroborou a teoria da administração incompetente e displicente, ressuscitando o estereótipo do empresário minhoto dos anos 80 e 90 ao volante de viaturas extravagantes de origem italiana explorador de costureiras pagas miseravelmente e encafuadas numa “garagem”, qual linha de produção improvisada.

O que realmente se passou

Toda esta superficialidade e geração de bodes expiatórios apenas úteis para que esconjurar culpas não assumidas não conseguirão apagar da memória colectiva (sobretudo para os alcainenses) o que se passou, de facto, com a Dielmar.

Passado o período “áureo” do têxtil em Portugal, a Dielmar procurou adaptar-se ao fenómeno da globalização e da deslocalização da produção para países de mão-de-obra (ainda) mais barata do que a portuguesa. Apostou em marca própria, ao mesmo tempo que manteve produção de “marca branca”, como forma de manter a sua sobrevivência e, sobretudo, o emprego produtivo.

Montou uma ambiciosa rede de lojas de marca própria com estratégia bem definida mas que, infelizmente, não gerou os resultados esperados. Há bem pouco tempo, patrocinou a equipa de futebol da selecção portuguesa de futebol e do Benfica. Procurou inovar com conceitos de alfaitaria e aconselhamento de moda nas suas lojas. O Sr. Presidente da República vestia Dielmar, supostamente, com orgulho. Era presença assídua e aplaudida nos desfiles mais emblemáticas da moda nacional (p.e., Portugal Fashion).

Tudo isto décadas depois da decadência da indústria têxtil a nível nacional, incluindo pólos industriais de dinâmica assinalável em Castelo Branco e Covilhã. Desse tempo, a Dielmar foi a única empresa (de renome) que conseguiu prolongar a sua actividade muito para além do expectável.

Um fim anunciado

Há muito tempo que se sabia das dificuldades em que a Dielmar se encontrava, sendo também convicção de todos que a empresa não seria recuperável. A situação sanitária veio apenas agravar e, eventualmente, antecipar o seu encerramento definitivo.

O Estado português estava a par desta situação e nada fez (se é que devia fazer algo) para contribuir para a sua resolução, a não ser através da injecção (indevida) de dinheiro dos contribuintes. De uma coisa estou, no entanto, certo: se o governo português tivesse investido um centésimo do esforço que faz para manter a Autoeuropa em Palmela, o projecto Dielmar poderia ter tido um desfecho bem mais digno, ainda que o encerramento pudesse ser inevitável.

O milagre DIELMAR

Sem menosprezar o drama social que representa o encerramento da empresa para Alcaíns, a sobrevivência até 2021 da Dielmar é um milagre só possível devido à perseverança e consciência social muito acima da média da sua ex-líder.

Em vez de insultos politicamente correctos e vazios de sentido, é com gratidão que o legado da Dielmar deve ser encarado e preservado. Neste contexto, a transformação das instalações da Dielmar em museu é um projecto que se impõe. Os membros da família que criaram e mantiveram a empresa (incluindo a sua última representante) merecem estátuas e seus nomes atribuídos às principais ruas de Alcaíns.

Não tenho dúvidas que tal nunca sucederá, passando a Dielmar à história como mais um caso de iniciativa empresarial privada abusiva e insensível às questões sociais.

RIP Dielmar. Obrigado, Ana Paula Rafael.

 

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