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Associação considera crime patrimonial destruição de moinhos de maré no Barreiro

A Associação Barreiro Património Memória e Futuro criticou hoje o que considera ser um crime patrimonial e ambiental em Alburrica, no Barreiro, com a destruição dos moinhos de maré e do sapal da caldeira grande.

A associação, que realizou hoje uma sessão de esclarecimento e denúncia, com uma visita ao local com a presença de dois arqueólogos, alertou para a necessidade salvaguardar o que ainda for possível relativamente ao Moinho Grande e à sua caldeira.

Os moinhos de maré eram formados por uma caldeira que se enchia de água através de uma porta (adufa), quando a maré enchia, fechando-se em seguida, até à descida das águas, e por uma construção onde se situavam diversas moendas (pares de mós) que se destinavam ao fabrico de farinha.

“O moinho de maré grande já não existe, foi arrasado, como o pequeno também já o tinha sido pela Câmara Municipal do Barreiro. A riqueza cultural, identitária e económica deste bem patrimonial de arqueologia industrial morreu”, refere a informação divulgada, destacando não ter sobrado nada do edifício: nem arcadas, nem mesmo a estacaria sobre a qual o moinho se encontrava construído.

A associação defendeu que a destruição deste edificado não é entendível quando especialistas afirmam que os moinhos são importantes não só para o Barreiro, como para todo o estuário do Tejo: “São tão importantes à nossa escala como o Coliseu é para Roma e, apesar de ter partes em ruína, nunca passou pela cabeça de ninguém, em Itália, arrasá-las para fazer paredes novas.”

“Alguns dirão que estavam em ruína, que o local estava abandonado, que era tempo de apagar estas cicatrizes. Porém, Alburrica e o seu património é um caso muito especial na Área Metropolitana de Lisboa, enquanto Paisagem Cultural ou Paisagem Humana Evolutiva [da UNESCO], por isso a sua classificação como Sítio de Interesse Municipal para preservação moageira, ambiental e paisagística”, explicou.

Em novembro, o município, no distrito de Setúbal, assinou com a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) um protocolo de cooperação técnica para a requalificação da Caldeira Grande, na zona de Alburrica, onde existiam moinhos de maré em ruínas e que foram entretanto destruídos.

Para a Caldeira Grande a autarquia tem projetada uma das maiores praias de rio da Área Metropolitana de Lisboa, um projeto que deverá estar concluído até ao final de 2023, e no caso do Moinho Grande o objetivo é a sua recuperação.

No entanto, a associação defende que o que está projetado não corresponde à realidade do que era realmente o moinho.

“Este património só tem valor patrimonial se for restaurado e restaurado não implica ter que reconstruir como era. É preciso é que se fique a perceber as várias idades do edifício, se assim não for fica a valer como outro qualquer”, explicou Carla Marina Santos, da associação, apontando como mau exemplo o que foi feito com o Moinho Pequeno.

O Moinho Pequeno, referiu o presidente da associação, José Encarnação, já não existe porque há três anos foi deitado abaixo com uma retroescavadora, sendo depois recuperado como um edifício moderno.

“A carta existente do património industrial é muito clara no sentido da sua preservação e não o que foi feito aqui, sem estudos de arqueologia”, disse.

Carla Santos acrescentou, em declarações à agência Lusa, que fazer obras deste tipo sem ter atenção às regras e às convenções que existem é deitar fora dinheiro, a história e um pouco da identidade.

“Nada se cria do nada, tudo assenta no passado e neste momento nesta área tão importante no Barreiro o que se está a fazer é destruir”, disse.

Jorge Custódio, arqueólogo e investigador do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, considera que o caso dos moinhos de Alburrica é emblemático do que não se deve fazer ao património, lamentando uma nova corrente de “cenarização patrimonial”.

“E, mais grave ainda, com o beneplácito da Direção-Geral do Património Cultural e do Ministério da Cultura, que não atendem aos verdadeiros valores porque para eles o que interessa é o crescimento económico”, disse, em declarações à agência Lusa.

Do ponto de vista ambiental, a associação também considera estarem a ser cometidos erros na Caldeira Grande.

As caldeiras dos moinhos de maré, explicou a associação, são sapais e, portanto, zonas prioritárias de restauro por razões ecológicas e ambientais, pelo que “do ponto de vista ambiental, outro crime foi cometido”: a caldeira está seca e o seu ecossistema morto.

“Como é possível receber dois milhões de euros de fundo comunitários, para destruir um sapal? Gostaríamos de ter resposta para partilhar convosco, mas, até hoje, nenhum organismo respondeu às nossas interrogações”, frisou a associação.

Para a autarquia, o mérito desta intervenção com a criação de uma praia fluvial está também no combate às alterações climáticas, já que a existência de estruturas desta natureza, próximas do centro da cidade, contribui para atenuar as ondas de calor.

“Este projeto vem renovar o ecossistema e prevê a limpeza da caldeira, a consolidação e qualificação das margens, a colocação de uma plataforma de areia capaz de assegurar atividade lúdica ou desportiva, junto a um espelho de água que pode ser controlado independentemente da maré”, explicou a autarquia, numa nota de apresentação do projeto.

Segundo o presidente da associação, a caldeira era já um processo natural de arrefecimento, enchendo e vazando de acordo com as marés, sendo um habitat para aves do estuário do Tejo.

*LUSA

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