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Ponto de Vista… por Margarida Duque Vieira

No debate público, a que se assiste diariamente, raramente se transmite o olhar do mero cidadão afastado da ribalta mediática.

Ouvem-se muitas vozes furiosas atacando sempre os outros pelos machos que nos atingem.

Digo “atacando” porque é apenas disso que se trata. Não há confronto de ideias, perde-se o tema obscurecido pela luta entre partidos, entre grupos do mesmo partido ou apenas pessoas ou grupos à procura do seu lugar ao sol. A polémica normal e desejável em democracia está refém do escarcéu partidário que sendo legítimo, normal e necessário peca pela falta de debate sensato, profundo e produtivo.

Claro que há problemas. Claro que há responsáveis e obviamente é a esses que se exige a apresentação de contas mas, foram eleitos por quem interveio na escolha.

Falta muito para que “se cumpra ABRIL” e essa falta, a participação dos cidadãos, seja por seu desinteresse ou, porque infelizmente também não há interesse em sua intervenção, tem um peso enorme.

Não é a primeira vez que relembrou uma sessão comemorativa da constituição que teve lugar em Castelo Branco no Cine-Teatro e a que conseguiu assistir. O Presidente da República Marcelo R. de Sousa, O General Ramalho Eanes e o Professor Jorge Miranda foram na ideia de que a falha na concretização da democracia em Portugal é a fraca participação dos cidadãos.

Muitos ainda fazem como Pilatos, lavam as mãos o que no caso, levou à condenação de um Homem bom. “Eu não me meto em política” ouve-se muitas vezes, não percebendo que essa frase é em si mesmo um acto político, às vezes, um mortífero acto político como no caso de Cristo.

Já ninguém pode ignorar com a recente catadupa de notícias muito preocupantes sobre as questões da água, ou da falta dela e genericamente do clima, o que nos espera no futuro muito próximo. E os incêndios – o crime e o (não) ordenamento do território, – questão parceira do clima e da água. Como secas são cada vez mais frequências e mais prolongadas.

Mais perto de nós: o aparecimento repetidamente de muitos peixes mortos e até de aves na albufeira da Barragem de Santa Águeda sem que se continue o saber oficialmente qual a origem da mortandade, faz antever um futuro com muitos maiores problemas se acrescentar aos razões já existentes como muitas mais que advirão.

Para já é visível a diminuição drástica e repentina de atração do lugar. Para quem frequenta ou passa pelo local é flagrante o número de pessoas que no verão passado usufruiam do espaço com o deserto que se encontrar agora encontra.

Os interesses em presença e a incúria dos Responsáveis expulsam as pessoas no acesso a um bem que pertencem a todos e que poderiam pelo contrário ser um lugar aprasível e um fator de atractividade para a zona e a região.

Ninguém saberá contabilizar, mas presumo que, simultaneamente, está a ocorrer um aumento exponencial de aquisição de água engarrafada.

Uma notícia do ano passado relativa à zona de Odemira referia que a Associação de Regantes, devido à escassez de água, tinha cortado o abastecimento aos agricultores que não seus associados. Presume-se facilmente tratar-se dos pequenos agricultores da zona que da sua pequena courela se alimentam. A água foi assim destinada aos grandes investidores, que apenas pretendem retirar capital, muito e depressa não se preocupando com o que fica destruído para trás.

Na separata do Público P2 do Domingo 26 de Junho passado, inclui-se um artigo (pág.s 4 a 10) intitulado “PESTICIDAS – Guerra aberta na Europa sobre um perigo invisível”.

Transcrevo esta parte:

Lembrando um estudo internacional recente que detectou grandes níveis de contaminação por pesticidas nas peras e maçãs portuguesas, Alexandra Azevedo (responsável da Quercus pelo tema dos pesticidas) percorre o mapa do país apontando os casos mais problemáticos: dos arrozais dos vales do Mondego, Tejo e Sorraia, que fazem de Portugal o terceiro produtor deste cereal na Europa, e são “pulverizados com pesticidas por avião”, à fruta no Oeste, às estufas no litoral alentejano, aos cerejais da Beira Interior, à nova produção de abacate no Algarve, que se junta à tradicional cultura dos citrinos, e aos olivais e amendoais nas margens do Alqueva. Isto é o que a Quercus pode apontar, conhecendo a produção intensiva e as necessidades que ela tem de compostos químicos (herbicidas, fungicidas, pesticidas). “Não se sabe mais porque não se fazem análises”, critica Alexandra Azevedo.

Para contrariar a estranha falta de análises em Portugal, a Quercus decidiu pagar testes laboratoriais à urina de 26 voluntários para detectar a presença do pesticida mais vendido em Portugal, o glifosato (com o nome comercial Roundap). A substância química foi detectada em 100% da amostra e em valores preocupantes. “O valor médio de glifosato na urina dos portugueses testados foi de 26,2 ng/ml (nanogramas por milímetro). Para referência, tome-se a Directiva da Qualidade da Água: na água de consumo, o glifosato não pode ultrapassar os 0,1 ng/ml. Isto significa que a quantidade de glifosato agora detectada, se estivesse em água da torneira, contaminaria essa água 260 vezes acima do limite máximo legal.”

Lá se vai a magnífica fruta portuguesa de que tanto nos orgulhamos!

Notícia do Jornal Reconquista de 9 de junho passado, titulava “Dúvidas de Castelo Branco não travam regadio” focando sobretudo declarações proferidas pelo Presidente da CM do Fundão. Talvez peque por estilo jornalístico, mas não deixa de ser preocupante ao ler o artigo a forma como são encaradas questões desta natureza pelo impacto que virão a ter agora e no futuro e a total ausência de atenção aos cidadãos.

Como de costume acena-se com a existência, no caso, de 15 milhões para fazer a obra.

Que bom serem bem gastos! pedem-se sugestões.

Acreditando-se na miragem de que Governo e Entidades responsáveis têm o intuito de criar e fazer cumprir uma Lei cheia de virtudes, todos sabemos de sobejo que depois não haverá meios necessários para a fazer cumprir.

Coisas simples como a instalação de painéis informativos junto à albufeira, sinalizando os locais  para utilização lúdica ou pesca; colocação de ecopontos substituidos com frequência; abertura dos caminhos de acesso necessários (a Responsável da APA garantiu há anos à Plataforma de Defesa da Barragem que o Serviço estava a fazer o levantamento dos registados no POASAP e esses iriam ser abertos) estão por cumprir há anos. Falo só dos mais óbvios e simples de executar pois uma extensa lista de questões de enorme importância têm sido amplamente noticiadas.

É preciso dar um passo atrás e pensar o que fazer para bem das pessoas, do local e também contribuir para um planeta melhor.

Espero que os Presidentes das Câmaras do Fundão e de Castelo Branco, ponderem profundamente o assunto, fazendo com que à frente duma preocupação legítima de promover o crescimento da região esteja presente a preocupação do seu desenvolvimento.

Mas ainda:

É urgente um debate aberto, transparente, alargado. Chamar a ele os que já se têm pronunciado:

a Plataforma de Defesa da Barragem de Santa Águeda; a Quercus; outras Associações ambientalistas e/ou cidadãs; o Eng. Calmeiro, responsável pelas obras de construção da Barragem;

o Eng. Carvalhinho, ex-Vereador da Câmara de Castelo Branco e actual Sec. Executivo da CIMBB; o Eng. Cardoso Moura, responsável pela construção de várias Etar,s e outros empreendimentos análogos; e, tantos outros conhecedores da matéria que podem alargar a visão de todos nós.

E claro:

Os cidadãos.

Sr. Cidadão, o que acha?

Atrevo-me a começar eu já:

A Barragem de Santa Águeda tem de ser reafirmada como de uso exclusivo de abastecimento público e fruição para lazer e pesca desportiva.

Os 15 milhões de euros que dizem existir, devem destinar-se a completar ou corrigir o que ainda não foi feito começando por eliminar os agentes provocadores da poluição, passando à aquisição pelo Estado dos terrenos de uma faixa de terreno com 50 metros além do nível pleno de armazenamento, libertando os proprietários do papel de assegurar o cumprimento das regras estabelecidas mas também, obrigando a reposição da vegetação autótctone e, por último, dotar o local das infraestruturas necessárias para que se torne um verdadeiro sítio de lazer.

À nossa frente há dois cenários possíveis:

Um que aposta no projecto Gardunha-Sul.

Como cogumelos nascerão muitas novas plantações intensivas de fruteiras à volta da albufeira da Barragem que necessitam para sobreviver de muita água que lhe vão retirar e, como recompensa, despejarão para a água quantidades enormes de produtos químicos necessários à sobrevivência da produção intensiva.

Quem ganha com isso? Um pequeno grupo de investidores (ou serão predadores?), certamente não agricultores de quem, provavelmente, nem os nomes saberemos.

Trabalho? vão gerar? Nem por isso. O grosso do trabalho maioritariamente sazonal, será assegurado por gente de países mais pobres do que Portugal que fazem como os portugueses quando nos anos sessenta procuraram melhorar as suas condições de vida.

Aumentará o número de episódios de peixes e outros animais mortos, de águas turvas e borbulhantes, fuga de pescadores e deixará de ser o lugar aprazível onde se pode recuperar forças.

O outro cenário será a valorização daquele magnífico espelho de água.

Limpo de tudo o que o conspurca. Com margens preparadas para que as pessoas as possam fruir. Com equipamentos de apoio, segurança e recreio.

Um local de beleza e descanso. Vejam-se as magníficas fotos que o grupo “Marateca Mágica” tem retratado e divulgado.

Temos junto de nós uma maravilha aos pés da Serra da Guardunha que lhe dá também um magnífico enquadramento.

Isto sim pode ser um factor sólido de desenvolvimento da região, não só para a população local mas também pela atractividade que pode trazer consigo. Assim se consiga que o seja. Com a participação de muitos que a apreciam. E como factor económico generalizado.

A utopia não faz mal a ninguém e traz em si esperança. Esperança que o bom senso prevaleça

Se muitos estão de acordo com o projecto Gardunha-Sul, paciência, que se avance.

Mas, se muitos não o aprovam e, basta ouvir os que estão à nossa volta para perceber que são mesmo muitos, ele só se concretizará se deixarmos.

*Margarida Duque Vieira

 

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