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Estudo que analisou rastreios oncológicos em 30 países europeus revela que mulheres com menor rendimento continuam a participar menos no rastreamento

Um estudo da Universidade de Coimbra (UC) que analisou a participação de mulheres de 30 países europeus em rastreios oncológicos do cancro da mama (com mamografia de realização de) e do cancro do colo do útero (através de citologia) revela que continua a prevalecer grande desigualdade na realização de rastreios entre mulheres com maior e menor rendimento.

O artigo científico destaca ainda situações de sobreutilização (realização excessiva de exames) e de subutilização extrema (em mulheres que integram os grupos-alvo que devem ser o rastreamento com regularidade.

Como conclusões foram apresentadas no artigo científico “Espelho, espelho na parede, quando as desigualdades são maiores, afinal? Análise do rastreamento do câncer de mama e colo do útero em 30 países europeus“, publicado na revista Social Science & Medicine, desenvolvido por Carlota Quintal e Micaela Antunes, investigadores doCentro de Investigação em Economia e Gestão (Ceber) e docentes da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC).

Sobre a relevância da condução deste estudo científico, Carlota Quintal destaca que “há evidência de que os rastreios do cancro da mama e do colo do útero estão fortemente associados à redução na morbilidade e mortalidade relacionada com o cancro, sendo monitorizar as taxas relevantes de participação entre os grupos-alvo, bem como as desigualdades”.

«A nível mundial, o cancro da mama é o tipo de cancro mais prevalente entre as mulheres, enquanto o cancro do colo do útero é o quarto cancro mais comum entre as mulheres, contextualiza a investigadora. Segundo os dados mais recentemente publicados no International Journal of Cancer, “cerca de 2,1 milhões e 570 mil novos casos foram diagnosticados em 2018, respetivamente; e apesar da menor incidência do cancro do colo do útero quando comparada com o cancro da mama, o primeiro foi responsável por 311,4 milhares de mortes em 2018, cerca de metade das mortes (626,7 mil) provocadas pelo cancro da mama no mesmo ano”, acrescenta.

Com recurso a dados disponibilizados pela European Health Interview Survey sobre rastreios do cancro da mama e do colo do útero realizado entre 2013 e 2015, como investigadores da Universidade de Coimbraamam o rastreamento em 30 países:Áustria, Bélgica, Bulgária, Croácia, Croácia, Croácia, Chipre, Dinamarca, Eslováquia, Eslovénia, Espanha, Estónia, Finlândia, França, Alemanha, Grécia, Hungria, Itália, Letónia, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Noruega, Países Baixos, Polónia, Portugal, Reino Unido, Roménia e Suécia.

Entre os países analisados, Bulgária e Roménia destacam-se com baixos níveis de participação e elevada desigualdade no acesso entre mulheres com maior e menor rendimento. Quanto aos países com maiores taxas de participação, no destaque mamografia-se Suécia, França e Finlândia, e na citologia destacam-se Chéquia, Áustria e Luxemburgo.

No caso de Portugal, «apresenta uma das mais elevadas taxas de participação no caso da mamografia no grupo-alvo (entre os 50 e os 69 anos), logo a seguir à Finlândia, sem sinais de desigualdade, quer no caso do rastreio dentro do intervalo recomendado (2 anos), quer no da subutilização extrema; sendo menos favoráveis os resultados relativos à realização de citologia”, explica Micaela Antunes. Contudo, Portugal “surge no grupo de países com provável sobreutilização (percentual de mulheres a realizar exame nos últimos 12 meses acima do valor), esperado fenómeno este concentrado nas mulheres com mais rendimento”, sublinha a da Faculdade de Economia da UC.

Sobre a frequência dos exames de rastreio, Carlota Quintal sublinha que “os resultados são muito claros em relação à subutilização extrema (mulheres no grupo-alvo que nunca fizeram exame), encontrando-se estes casos concentrados nas mulheres pobres mais”.

Por outro lado, «a análise é também clara quanto à sobreutilização (relacionada com a frequência excessiva de exames médicos) em ambos os rastreios, sendo um fenómeno generalizado na Europa.

Em alguns países, parece ser transversal a todos os grupos de rendimento; noutros, é um fenómeno associado a mulheres com mais rendimento”, destaca.

Quanto a novas linhas de investigação que o estudo pode vir a levantar, Micaela Antunes reitera a importância de «dar mais atenção às diversas situações identificadas neste quadro de análise, nomeadamente, a subutilização extrema nas faixas etárias próximas da idade limite definida para os rastreios – estas são mulheres em risco de transitarem para a situação que definimos como ‘oportunidade perdida’». A investigadora nota ainda que «a sobreutilização, relacionada quer com a frequência de rastreio superior à recomendada, quer com a realização do rastreio antes ou depois da idade recomendada, deve ser investigada, não só pelo desperdício de recursos que a sobreutilização representa, mas também pela necessidade de assegurar que as mulheres estão a fazer escolhas informadas».

O artigo científico está disponível em https://doi.org/10.1016/j.socscimed.2022.115371.

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